sábado, 10 de junho de 2017

Camões, no seu dia - Um Sarau na Casa das Rosas

Um poeta sinônimo de sua própria língua, Luís Vaz de Camões.

Um país que celebra sua data nacional na data da morte de seu poeta maior e dedica essa mesma data às comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, Portugal.

Neste dia 10 de Junho de 2017, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, feriado nacional em Portugal, 437 anos de sua morte, Camões vive e é celebrado aqui, ali, além e em todos os recantos onde chegaram os lusos navegadores e se mais mundo houvera, lá teriam chegado. 


  
Foi hoje, neste mesmo dia 10 de junho, que, cheia de alegria e honra, participei de um belo momento evocativo da data. O Sarau Camões, organizado pelo Mestre/Poeta Carlos Felipe Moisés, integrou o Festival Camões na Casa das Rosas, decorrido durante todo o dia deste lindo sábado de final de Outono.




Fui uma das convidadas que deram voz à poesia de Camões e, de lambuja, ainda li poemas meus que, de alguma forma, dialogam com a poética camoniana. Um momento honroso e afetivo, estar naquela mesa, ao lado de velhos amigos como Carlos Felipe Moisés, Renata Pallottini e  Álvaro Alves de Faria, bem como ouvir vozes dos outros poetas convidados e igualmente amigos, como Flora Figueiredo e Ruy Proença, Victor Del Franco, além de ter a oportunidade de ouvir pela primeira vez os jovens poetas Leila Guenther, e Paulo Ortiz. Gerações diversas a celebrar a poesia de Camões na bela língua de Camões.














Teve até Jorge Luis Borges, evocando Camões, lido no original pela querida Renata que também surpreendeu o público, de improviso e fora do roteiro, cantando, de maneira deliciosamente bem humorada, uma antiga marchinha de Carnaval, paródia dos versos de Camões "As armas e os barões assinalados / vieram assistir ao carnaval./ cantando espalharei por toda a parte que o porta-estandarte vai ser seu Cabral". 


Dentre os textos de Camões que li, seleciono este Soneto 

Busque Amor novas artes, novo engenho,
Para matar-me, e novas esquivanças,
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê;

Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei porquê.

e este poema meu, também lido na ocasião (a sua benção Camões!).

educação pela palavra

                Estremeço. No coração. As letras vêm de lá
                 e da mão.
                                           Luiza Neto Jorge
    

de sua voz, pouco recordo
metida em seu pijama amarrotado
manhã adentro, olhos fincados
no jornal do dia
(os dias e os seus acontecimentos eram
o que pelo jornal lhe chegava)

à tarde, a bisavó letrada
(sempre dispensando os óculos
lia camões e folhetins franceses
em brochuras de papel ordinário
chegados de vapor
quinzenalmente)
tomava chá inglês

toda aquela devoção
à palavra impressa
(intuía a menina)
algum mistério continha
e passou a imitá-la

em segunda mão, os folhetins
e o camões indecifrável
lhe diziam que seriam entranhados
um dia, um dia...

       dalila teles veras in solidões da memória, Dobra Editorial/Alpharrabio Edições, SP, 2015

As fotos são de Luzia Maninha, a quem muito agradeço

4 comentários:

  1. Belo momento que contemplo agora aqui da borda da Mata Atlântica em que vivo a escutar estes mistérios revividos em dois mil e dezessete

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  2. Pelo motivo, pela competência dos convidados, pelo mote, com certeza foi um grande momento em que se deu voz à voz maior da lingua mãe!

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  3. Querida, obrigada por compartilhar tão vivamente conosco, que não pudemos estar presentes no Encontro. Imagino como deve ter sido bom e aguardo os próximos! Um abraço!

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  4. dalila teles veras13 de junho de 2017 13:14

    Muitíssimo obrigada, amigos queridos, Edson, Rosana e Adelia, pela sempre generosa leitura e comentários. Já prometi a mesma não deixar vácuos longos nas escrituras do blog. Abraços

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