domingo, 29 de janeiro de 2017

Grafite - Imagem tatuada na paisagem urbana

A propósito do ato arbitrário, voluntarioso e descabido do recém-empossado prefeito de São Paulo, ou seja, o apagamento de um mural grafitado na av. 23 de Maio, o maior mural desse tipo na América Latina,  reproduzo aqui um texto que escrevi já há algum tempo para o blog do grafiteiro Vado do Cachimbo e que poderá eventualmente contribuir como reflexão diante da polêmica que esse gesto de desprezo não só pelos artistas, mas, sobretudo, pela história da cidade provocou.

muro externo da Livraria Alpharrabio (Santo André, SP) grafitado por Vado do Cachimbo, em 2012.

IMAGEM TATUADA NA PAISAGEM URBANA E NO ESPAÇO VIRTUAL
                                    Dalila Teles Veras

            “Imagem tatuada” foi um feliz termo cunhado por Baudrillard para definir o fenômeno da arte do grafite, já agora objeto de estudos acadêmicos e vasta documentação mundo afora.

            O fato é que a arte de pintar muros com arte, “Arte conceitual involuntária” ou “arte” mínima” (1) e tantos outros rótulos que viria a receber, surgiu justamente para desmontar alguns conceitos, inclusive, o de ampliar o próprio conceito de suporte (seria um não-conceito?) da cidade como moldura , uma não-arte ou, ainda, a arte de volta às suas próprias origens (das raízes nas paredes das cavernas e junto à comunidade).

            Tirando-se a história antiga do grafite, que se confunde com muralismo, cujos registros conhecidos vêm lá da Grécia antiga e de Pompéia, o começo daquilo que poderia ser classificado como movimento de grafite no Século XX, teve suas raízes plantadas no grafite-mensagem, ou caligrafite, a idéia sem preocupação com a forma, ou seja, a mensagem filosófica, nos muros da Sorbonne (“Seja realista: exija o impossível”, por exemplo) em 1968. A sua repercussão, está claro, foi planetária. Migrou, poucos anos depois, para o metrô de N.Y., também resultando das grandes tensões sociais e étnicas, mas assimilando as cores locais e assumindo outras características.  (“Os grafites são uma expressão de um gueto que está próximo da catástrofe posto que a civilização é mantida presentemente hostil ao gueto”, segundo Norman Mailer) (2).

             No Brasil, não foi diferente. Ainda em 1968, timidamente (não podemos nos esquecer que eram esses anos de chumbo em nosso país) os estudantes usam os muros da Rua Maria Antônia e da zona urbana da cidade, como meio para mensagens de cunho político, quase cifradas. O caligrafite viria mesmo eclodir por aqui bem mais tarde, lá pelo final dos anos 70,  não só com palavras de ordem política contra a ditadura, mas também com recados amorosos, provérbios bem humorados, compondo um verdadeiro balaio mural.

            Como sempre, a imensa capacidade do brasileiro em amalgamar culturas: o muro como suporte e objeto de protesto, assimilando a forma-mensagem francesa e a forma-plástica americana. Walter Silveira, o pioneiro, viu o seu emblemático ideograma verbal HENDRIX/MANDRAKE/MANDRIX, em 1978 (3) causar interesse de vários periódicos que o publicaram e, logo depois, uma legião de seguidores a fazer uso do muro para a sua manifestação poética (em geral, amorosa).

            Nessa fase jurássica brasileira, a prática não distinguia grafite de pichação, esta última sempre vista com uma carga negativa e pejorativa de “vandalismo”, “emporcalhamento” e de “poluição visual”. Há estudiosos, entretanto, que não fazem distinção entre ambos e fazem questão de usar o termo “grafito” ao se referirem a essas manifestações nos muros, sejam elas com letras, palavras, ou desenhos. Vale, aqui, o suporte, independentemente do conteúdo da mensagem.

            Prevalece, no entanto, na sua imensa maioria, o termo pichação para expressões de pessoas sem formação artística e que se valem dessa maneira de protesto para, simplesmente, deixar o seu próprio nome, ou de seu grupo registrado, com o único propósito de demarcar território ou até por simples ânsias de identidade.
Da pichação ao chamado grafite universitário, praticado no começo dos anos 80 por estudantes de artes ou arquitetura, cujo pioneirismo em São Paulo é creditado a Alex Vallauri, dá-se um salto não só estético como também de conteúdo social. Faz escola, ganha admiradores e rivais.
           
            É nesse efervescente contexto que, vindo do Grande ABC, chega à Capital, Edvaldo Luiz Alvares, ou simplesmente o Vado, ou ainda Vado do Cachimbo, como é conhecido artisticamente, com ânsias de colorir o mundo.

            Diversamente da maioria dos grafiteiros mais notáveis da época que, em atitude de dessacralização da arte, saíam das galerias para as ruas, Vado constrói um caminho inverso, partindo das ruas e de uma arte solitária e primitiva para as galerias. Antes, quando conhece Maurício Villaça e passa a integrar o grupo Art Brut, Vado já ia além dos desenhos ready-made, praticados pelos grupos paulistas nos muros da cidade e criava seus próprios personagens. A partir de Catiana, surgida desde o início de sua carreira, quando era tido pela crítica como primitivista e ganhava prêmios nessa categoria, ele vinha trabalhando com bonecos-personagens.

            Esse trabalho personalíssimo chama a atenção de Alex Vallauri que o convida a colaborar com seu grupo. É quando Vado passa a utilizar-se de máscaras, ferramentas próprias do grafite, bem como a sofisticar e aprimorar esteticamente essa galeria de personagens que ele veio a denominar de “família dos ACs”, desenhos que ele continuou apurando até que esse trabalho ficasse definido como um estilo que passou a ser a sua marca. “Um conjunto de fantoches aparentados pela fisionomia e pela silhueta: todos sorridentes, todos delineados por um cerne preto que apresenta a particularidade de ser “espinhoso” (...) Todos os ACs têm uma flor na mão, mensagem otimista de amor e fé na vida. (...) uma linguagem muito pessoal que transcende os meios de expressão: situando-se entre a caricatura e o grafite.

            Vado inventa um mundo coerente onde a ternura disputa com a crueldade, envolvente tanto pelas qualidades plásticas e cromáticas quanto pelas conotações evocadas pelos estranhos homenzinhos” como bem o definiu a crítica de arte e pesquisadora Josette Balsa, num texto para um catálogo de exposição, em 1985. É de se notar que as cores desses trabalhos de Vado são de uma alegria contagiante, imagens carregadas de símbolos, muitos símbolos, pura alegoria e invenção.

            Em 1987, a convite de Vallauri, Vado participa da Bienal Nacional de São Paulo “A Trama do Gosto” e da primeira grafitagem à luz do dia, no buraco da Av. Paulista, além da execução do cenário da peça de teatro “A Rainha do Frango Assado”, criada por Vallauri. Isso o insere no contexto de um grupo de vanguarda de São Paulo que chama a atenção da mídia e chega a ser capa da revista Veja e objeto de grandes matérias em outros veículos de grande circulação.  Essa arte que tem como moldura a própria cidade, a arte noturna e marginal, não só é aceita, como também é elevada ao status das grandes mostras.  
            A arte de pintar muros com arte desmantelou alguns conceitos, inclusive, ampliar o próprio conceito de suporte (seria um não-conceito?), da cidade como moldura, uma não-arte ou, ainda, a arte de volta às suas próprias origens (das raízes nas paredes das cavernas e junto à comunidade).

            A idéia de um projeto para contar a trajetória da obra de Vado através de seus próprios desenhos e da poesia de poetas convidados não é nova, mas só veio a ganhar forma recentemente.

            Em 1992, convidei o Vado para fazer a capa do número 6 da revista Livrespaço, da qual eu era uma das editoras, e ele manifestou o desejo de vir a compartilhar um livro de seus grafites com poetas, um diálogo entre seus desenhos e os poemas. Achei a idéia fascinante mas o projeto não vingou e nos distanciamos. Alguns anos depois, torno a reencontrar o Vado e lá volta a idéia do projeto para, finalmente em 2001, durante uma gravação para o programa Mural do Artista, comandado por Vado para o Canal 3, TV comunitária da Canbras, surgiu novamente a pergunta: e o nosso projeto do grafite & poesia? Achei que estava mais do que na hora de colocá-lo em prática.

            Na verdade, a proposta era que o próprio Vado escrevesse a sua trajetória artística, uma espécie de Itinerário de Pasárgada, como fez o poeta Manoel, e que os poetas e as fotos de seus trabalhos ocupassem as outras páginas do livro. Porém, ele confessou-me que não levava jeito para isso, que detestava escrever, tinha preguiça. O que ele queria mesmo era uma intervenção poética nos seus trabalhos de grafite e que, ao lado das fotos, isso constituísse a sua história artística.  Foi então que surgiu a idéia da entrevista, ou seja, o artista “oralizado” por ele mesmo.

            O entusiasmo desta vez não deixou que o projeto voltasse para a gaveta. Dias depois, lá estava eu mergulhada no imenso arquivo do artista, com as incontáveis reportagens publicadas em jornais e revistas de grande circulação sobre as suas atividades artísticas, além de fotos, convites e catálogos, material que fui anotando e que me serviu de roteiro para as perguntas que, dia seguinte, gravador em punho, passei a formular ao artista.
Foram seis horas de gravação e muitas outras de conversa, anotações, correções. À medida que a entrevista ia sendo transcrita, era conferida em conjunto com o autor para, novamente, acrescer novas perguntas.

            Todo esse trabalho foi elaborado de forma bastante prazerosa. As descobertas foram surgindo, as leituras paralelas para entender esse fenômeno tipicamente urbano do grafite, arte que foi dos muros para as galerias e bienais e, mais do que tudo, compreender esse artista singular, primitivo quase, com uma incrível e visceral capacidade criativa, verdadeiro motor movido a tintas, spray e cores.

            Projeto em caminho, passamos à fase dos convites aos poetas. Foram enviadas cerca de 6 fotos de trabalhos de Vado a cada um dos 11 poetas por mim convidados, desafiando-os a criar poemas que interferissem e dialogassem com aqueles trabalhos. Não houve determinação prévia de número de poemas. Assim, poetas como Milton Andrade, comparecem com apenas um poema e outros, mais pródigos, criaram vários. A única exceção ficou com Renato Brancatelli que, também praticante da arte do spray, chegou a cruzar caminhos com Vado, tirou lá do fundo do baú, dois poemas feitos no calor da hora dos anos 80. Nada mais adequado. Aliás, Renato Brancatelli foi o último a ser convidado (culpa minha que não havia lembrado da sua faceta de poeta) mas não deixou por menos, colocou à minha disposição seu arquivo bibliográfico sobre grafite, inclusive um trabalho acadêmico de sua autoria, apresentado em 1980, quando cursava o curso de Belas Artes e no qual ele afirma entender o grafite como uma continuidade da pintura mural, sobre a qual faz uma grande digressão e muito me ajudou a compreender alguns aspectos da trajetória dessa arte ainda hoje considerada marginal.

            O livro está pronto à espera de alguma editora ou de um mecenas que possa bancar sua edição. Além da entrevista com Vado, 12 vozes poéticas (a minha incluída) a intervir, penetrar no risco e correr o risco, poetizar com a palavra as imagens que já nasceram poéticas.

            Mais rápido que a impressão em papel, o meio virtual traz, antes, a obra de Vado a um público maior e mais atento do que aquele, apressado, que outrora apreciou seus grafites nos muros da cidade, imagens tatuadas no corpo da cidade e que, agora, ocupam paredes virtuais, de infinitos caminhos e possibilidades.

            Nada mais justo do que essas homenagens ao artista Edvaldo Luís Alvares, o Vado do Cachimbo,  o poeta da cor e da cidade.

Notas:
(1)   Hermann Waldenburg citado por Célia Maria Antonacci Ramos in Grafite Pichação & Cia. (Anna Blume, 1994, SP)
(2)   Norman Mailer “la religion des graffiti”, in “graffiti de New-York”, edição francesa Editions du Chêne, Paris, 1975
(3)   Conforme declaração do próprio poeta a Cristina Fonseca, publicado no seu livro A Poesia do Acaso (na transversal da cidade), T. A. Queiroz Editor, SP, 1981


GRAFITOS POÉTICOS

                            dalila teles veras



CINZENTACIDADE
INCORPORA ARCO-IRIS


SEM EFEITOS PROGRAMADOS
A COR IMPREVÍSIVEL


CIDADETELA
OBRA EM ABERTO


SOMBRAS NOTURNAS
ABRACADABRA
MATINAL TRANSFORMAÇÃO


NO RISCO DO RISCO
RASTRO DE CORES


NA FUGA DO FOGO
O TOM SOBRE TOM


SUSTO ATRÁS DE SUSTO
MÁSCARA MASCARA MÁSCARA
URBANOS RETRATOS EFÊMEROS


MADRUGADA:
ABERTA A CORTINA
O Ó DA CIDADE EM ESPANTO
O PALCO NO MURO 





2 comentários:

  1. Belo texto e justa homenagem ao grafite e à poesia, Dalila. Reflexão mais que oportuna nesses tempos cinzentos. Abraço,
    Marcelo D. Fraccaro

    ResponderExcluir
  2. dalila teles veras30 de janeiro de 2017 10:49

    Muito grata pelo honrosa leitura e comentários. Abraços

    ResponderExcluir