quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Catarina (no seu 8° dia de vida)

Catarina chegou
inaugurando Outubro
reafirmando a Primavera

Catarina, minha neta
é luz de nova estação
promessa de tempos novos
                       
Catarina é nome de santa
em Alexandria
e de algumas rainhas
dentre elas
Catarina de Médici
italiana, consorte de França
Catarina de Aragão
princesa de Espanha 
consorte de Inglaterra
Catarina II
Imperatriz russa
que reinou, reinando
colecionando arte e amantes

Catarina, nome antigo
vem lá do Século XII
tem história e personalidade
é também o nome de minha avó
Adelaide Catarina de Jesus
que se rainha fosse, ao contrário
da esfuziante russa, a grande
teria como cognome, a pequena

Catarina, minha neta
há de ser todas elas
porque mulher traz consigo
mulheres que a antecederam
mas será, sobretudo, ela própria
que traçará sua rota individual
sem descuidar das questões coletivas

Bem vinda Catarina
ao reinado dos meus afetos

dtv
09.10.2017

domingo, 8 de outubro de 2017

Coleção PerVersas – literatura de autoria feminina no Mulherio das Letras

Desde a primeira hora, o entusiasmo foi grande (e é ainda). O Encontro do Mulherio na Paraíba ocupou meus planos e tinha todos os motivos para isso. Por esses descaminhos da vida cotidiana, ainda que tivesse me programado e confirmado presença oficialmente, tive que me “desprogramar” . Sei que querer não é poder e, assim, tranquilamente admito não poder. Ponto.  

Para quem não sabe, o primeiro Encontro Mulherio das Letras é um encontro nacional que transcorrerá em João Pessoa, entre os dias 12 a 15 de outubro de 2017.  Trata-se de um evento pioneiro, organizado de forma coletiva e de maneira horizontal, cujo objetivo é reunir mulheres ligadas à literatura ( poetas, ficcionistas, dramaturgas, tradutoras, pesquisadoras e críticas, editoras, livreiras, ilustradoras, designers e jornalistas) oriundas de diversas regiões brasileiras. O evento é também inovador na sua forma, fora do modelo adotado como padrão de festivais e feiras de literatura que ocorrem em todo o Brasil. O Mulherio das Letras contará também com espetáculos teatrais e uma livraria, e que exporá e venderá ao público os livros das participantes.

Sem sombra de dúvida, este será um grande marco não só no cenário da literatura brasileira, como também na luta por direitos das mulheres brasileiras. As discussões que ali decorrerão balizarão os passos decisivos ainda a percorrer. Será um encontro histórico e, por essa razão, fica uma pontinha de tristeza por lá não estar presencialmente.

Entretanto, aqui estarei, no meu bunker do Subúrbio andreense, programada e ansiosa para receber notícias, mas ao mesmo tempo lá estarei, através das lindezas destes objetos gráficos e conteúdos literários que lá serão apresentadas e que seguem na bagagem da amiga Rosana Chrispim, parceira das letras de muitos anos.

Serão apresentados durante o Encontro Mulherio das Letras  os primeiros cinco volumes da coleção PerVersas – Literatura de autoria feminina, Alpharrabio Edições, Santo André, SP, viabilizada a tempo do Encontro, graças ao decisivo e incansável trabalho (criativo e braçal) de Luzia Maninha Teles Veras.  
Com a proposta de reunir textos (poesia, crônica, conto, ensaio) contemporâneos, a ideia da coleção surgiu de algumas discussões em torno da invisibilidade histórica das mulheres escritoras, decorridas nos encontros “Sábados PerVersos – a poesia em questão”, leitura crítica de poesia, evento mensal da Livraria Alpharrabio, desde novembro de 2014. A coordenação editorial da coleção é de Dalila Teles Veras e a concepção gráfica e criação manual dos volumes é de Luzia Maninha. Tiragem de 92 exemplares, numerados e assinados pelas suas respectivas autoras.


Assim, estará no Mulherio das Letras, este “pequeno mulherio”, que mora longe, mas perto está de todas as propostas (oportunas, necessárias, meritórias) do Encontro:

- a mulher antiga – dalila teles veras, vol. I
- cascos e crinas sobre fundo escuro – Conceição Bastos, vol. II
- relíquias de anjos – Deise Assumpção, vol. III
- não sabia a idade – Constança Lucas, vol.IV

- Contracena – Rosana Chrispim, vol. V

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Ruth Escobar morreu. Ruth Escobar vive!




Morreu hoje, aos 82 anos, Ruth Escobar. Atriz, política, feminista e produtora cultural ousada. Uma mulher à frente do seu tempo. Em 1982, acabara de publicar meu primeiro livro e fui convidada a participar do festival "Mulheres nas Artes", produzido por ela, decorrido no Club Homs, na Av. Paulista, em São Paulo. Foi um acontecimento cultural revolucionário que reuniu centenas de mulheres incríveis, daqui e de todos os lugares. Foi ali que vi pela primeira vez Cora Coralina, demoradamente aplaudida por um auditório em estado de encantamento. Dentre muitos outros incríveis momentos, foi também ali, pela ousadia de Ruth Escobar, que ouvi, igualmente em estado encantatório, outra mulher, feminista de sete costados, a italiana Dacia Maraini. Em 2001 assisti ao último espetáculo sob sua produção, "Os Lusíadas", monumental espetáculo encenado no local em que hoje está (em reforma) o Museu da Língua Portuguesa, na Estação da Luz. Acompanhava com entusiasmo sua carreira fulgurante e polêmica. Uma mulher de fibra que jamais se curvou ao establishment. Se a memória a abandonou na última década, cabe a nós manter a memória de sua arte e atuação cultural.
Ruth Escobar, portuguesa/brasileira, que muito fez pela cultura de suas duas pátrias, morreu. Ruth Escobar vive!


quinta-feira, 3 de agosto de 2017

2017 - A FLIP que desflipou e diversificou



            
Em 2003, estive em Paraty, RJ, encantadora cidade litorânea do RJ, encravada entre o mar e serras, onde, em priscas eras (1530-1812) funcionou um fervilhante "porto do ouro". Ali, de 1º a 3 de agosto, ocorria a 1ª Festa Literária Internacional de Paraty, a FLIP. Fui levada pela curiosidade. Afinal, uma Festa só para a literatura, era uma novidade absoluta, levando em conta a magnitude com que era anunciada e como de fato foi. Fui acompanhada por dois fiéis escudeiros, Valdecirio, o marido, e Antonio Possidonio Sampaio, o amigo. Fui porque além de festa literária, abria com uma celebração à poesia, homenageando Vinicius de Moraes. E foi lindo ver/ouvir Chico Buarque ler, emocionado, “Meu Tempo é quando” (“Eu morro ontem. Nasço amanhã. Ando onde há espaço “...), como foi igualmente lindo ouvir Antonio Cícero ler “Pátria Minha” e Adriana Calcanhoto a cantar “Eu sei que vou te amar” e Chico retornar, cantando “O poeta aprendiz”. E Gilberto Gil, na condição de Ministro da Cultura. Ali estava a FESTA! E eu estava nela. Ali estava um Brasil que acreditava no Brasil.
            A Festa era internacional, sim, como ainda é, havia escritores estrangeiros, mas também lá estava Ferreira Gullar, Ana Maria Machado, Milton Hatoum, Luiz Ruffato, Tabajara Ruas, Zuenir Ventura, Adriana Falcão, Joaquim Ferreira dos Santos, Jurandir Freire Costa, Drauzio Varella, Luís Fernando Veríssimo, Millôr Fernandes, Ruy Castro, Bernardo Carvalho, Marçal Aquino, Patrícia Melo, Eduardo Bueno a dizer que também o somos, além, naturalmente, de algumas destacadas figuras estrangeiras, dentre as quais o velho Eric Hobsbawm, firme e lúcido nos seus 90 anos, de quem guardo com muito orgulho seu precioso A Era dos Extremos – O Breve Século XX, autografado.
            Ainda que tenha me interessado muito, ficou sendo, por 14 anos, a primeira e a única. Com o crescimento brutal da Festa, fiquei afastada. Nunca me dei bem com filas e multidões e o desinteresse veio também pelas poucas surpresas nas programações posteriores, quase sempre dominadas por figuras do “mainstream” das grandes editoras.  A Flip passou a ser (quase) previsível. Ainda assim, sempre torci para que desse certo. A Literatura também precisa e agradece a festa.
            Até que FLIP 2017 foi anunciada e pela primeira vez sob a curadoria de uma mulher, a dinâmica e competente jornalista Joselia Aguiar, que passou a delinear uma proposta para a Festa que muito me interessou. Era maio e não tive dúvidas,  reservei um quarto na pousada, na expectativa da virada.
            A seguir, data vênia aos jornalistas, descrevo à minha maneira, em forma de crônica e com muitas aspas,  a “minha” FLIP (oficialmente, a 15ª, mas no meu calendário pessoal, a 2ª.).  
           


            
            A sagrada palavra da literatura invadiu o templo “construído com trabalho escravo”  (a benção poeta/pensador Edimilson Pereira de Almeida Pereira!). Sem a menor cerimônia, dialogou com o deus e os santos do lugar. Anticlerical, a literatura propôs um pacto de isenção e, durante cinco dias, fez do altar palco e palanque e celebrou o rito da comunhão pela palavra e pela diversidade.
            Foi então que se deu o “milagre ateu” (a benção presidenta Pilar!) e os fiéis leitores deram-se as mãos, sem olhar para suas respectivas peles, gênero ou classe social e celebraram o rito da forma mais iconoclasta, despidos de teologia, homenageando um escritor negro e pobre, cuja palavra vai percorrer todas as frestas dessa festa da palavra. Um escritor que “escreveu do ponto de vista dos excluídos, que usou a língua do dominador para falar dos dominados” (a benção Luciana Hidalgo!)
            E da sacristia saíram frutos estranhos que foram oferecidos à degustação da forma mais inusitada, entranhados nos olhos e corações de quem lá estava. Poesia pulsante, na palavra, na imagem, na voz, nos corpos. Poesia. Poesia fora de lugar, Poesia para ver, ouvir, sentir, cantar. Poesia multilíngue. Poesia soco no estômago (a benção Prisca Agustoni, a benção Adelaide Ivánova, a benção Josely Vianna Baptista, a benção Grace Passô, a benção Ricardo Aleixo, a benção André Vallias! por esta tropical fruteira de cores selvagens).
            E a palavra atravessou as paredes do templo, operando milagres das mais diversas versões pelas tortuosas ruas coloniais, calçadas de pedra e “suor dos pretos” (a benção Diva Guimarães, que, da plateia, virou diva da festa e viralizou nas redes sociais!) numa vibrante festa não oficial,  multiplicada em milagres laicos não qualificáveis, saudando os indígenas que tiveram voz e mostraram seu belo artesanato nas ruas, as estátuas vivas, os atores e suas performances, os músicos, entrando nas casas provisórias batizadas com os nomes dos seus criadores, oferecendo iguarias não catalogadas. E os que vieram para a programação oficial também foram encontrar seus leitores e sentaram nas duras pedras com a leveza de quem já experimentou a dureza (a benção Scholastique Mukasonga, que nos foi apresentada por uma pequena editora, a NOS. A benção Simone Paulino). 




            E livros, muitos, publicados por pequenas editoras que romperam a hegemonia das grandes (a benção Simone Paulino e tantos!). Livros autografados, dedicados, passaram para as mãos de leitores curiosos de ouvir vozes que não conheciam ou reconheciam.
            Esta foi a FLIP das surpresas e dos pequenos que são grandes. Dos livros e dos escritores voltados à literatura para jovens e adultos (a benção Suzana Ventura e tantos!) Das mulheres. Dos Negros. Dos pouco conhecidos, mas de há muito reconhecidos por seus pares, graças à consistência de sua obra e trabalho de décadas. Dos desconhecidos apenas por não serem (ainda) mediáticos, mas reconhecidos por láureas reconhecidas. Esta foi a FLIP das cartografias “fora dos radares” (a benção Joselia Aguiar, a timoneira que desviou o barco para águas fora do mapa!). Esta foi a FLIP daqueles que, silenciosamente, passo a passo, constroem pontes intercontinentais, através de ações educativas e de incentivo à leitura (a benção Leonardo Tonus). Esta foi a FLIP da ágora e da política, porque todo o ato que se quer público é também político. E em especial neste triste momento da vida brasileira, a política se fez incontornável.
            Esta foi a FLIP da diversidade. Homens e Mulheres pela vez primeira em igualmente de número (23 e 23  - os oficiais) tanto quando em igualdade de condições estéticas e méritos artísticos. Negros (um terço na programação e em número incontável na plateia).  E não, o critério não foi meramente a condição de ser negro ou mulher, como aqui e ali foram ensaiadas maldosas críticas (não por acaso de brancos e homens) porque as mulheres e negros que ali estavam já escreviam, estudavam, pensavam, publicavam há muito tempo, só não lhes era permitido mostrar. “As mulheres iam pouquinho nos eventos literários, só de cota” (...) As mulheres escritoras brasileiras não são tratadas com prestígio no meio literário: é como se fossem cozinheiras num grande restaurante de luxo. Sem elas a comida não existe, mas só recebem a gorjeta das comandas” (a benção Maria Valeria Rezende, mulher das letras e da ação, uma das figuras centrais e onipresente desta Festa!).
            
         Esta foi, por fim, a FLIP que esteve distante da superficialidade com que a maioria dos jornalões a noticiou e alguns ressentidos a criticaram. 

Algumas anotações, frases pescadas das falas que ouvi e que ficaram brilhando no escuro do ônibus, na longa e cansativa viagem de retorno:

- O que é escrever num país em estado de guerra civil? Edimilson Pereira de Almeida
- Há racismo, sim, mas é preciso atravessar o fogo do racismo, atravessar a floresta em chamas, apesar das queimaduras ( Scholastique Mukasonga)
- Toda a ficção é memória e toda a memória é ficção (...) No sertão não havia nada. Eu escrevia para ter também o que ler (Maria Valéria Rezende)
- Tudo absurdo! O absurdistão (Luaty Beirão, rapper e ativista angolano, referindo-se à situação política de seu país)
- Éramos filhas, esposas e mães, não tínhamos cidadania (...) A passividade está matando. Pessoas que só fazem o que lhes mandam são fáceis de governar. Ser cidadão ativo dá trabalho. (Pilar del Rio)
- Lima Barreto gritou contra o racismo, contra pistolões, apadrinhados políticos... Se tivéssemos lido mais Lima Barreto, não viveríamos o que estamos vivendo hoje (...) Hoje, com as redes sociais, o alto nível de reflexão pelos direitos sociais, o neo-feminismo, somos todos Lima Barreto.

            Os problemas enfrentados na primeira FLIP, permaneceram (preços exorbitantes praticados por hotéis e restaurantes, falta de banheiros e outras questões menores, sem contar o incontornável problema  histórico, ou seja, o andar aos saltos sobre as pedras e, agora, no meu caso, muito mais do que antes, com medo das quedas e a inevitável dor nas panturrilhas). 


Afinal, pedras fazem parte dos caminhos e são também matéria para poesia.
          
A FLIP aconteceu na mesma cidade,  com um formato bastante semelhante às anteriores, mas... quanta diferença!

#Josélia2018, por todas as questões relatadas.

O templo/matriz que foi palco

A voz dos índios



A voz das mulheres (e dos homens) como nesta linda mesa da Flipinha


A avidez leitora


A FLIP na rua


A FLIP dos intervalos e silêncios à margem do rio Perequê-açu






segunda-feira, 17 de julho de 2017

Nênia para Caio Porfírio Carneiro, meu amigo

Nosso amigo Caio Porfírio Carneiro morreu hoje, informa Rosani Abu Adal.  Fiquei triste e, como sempre acontece quando parte um escritor/uma escritora de minha admiração, meu primeiro impulso é buscar um dos seus livros na prateleira, reler trechos assinalados ou não de sua obra. É o que faço neste momento com os livros de Caio, em especial, de "Maiores e menores", livro que tivemos a honra de editar, pela Alpharrabio Edições, em 2003. Esta será minha silenciosa e sentida homenagem ao meu amigo e de tantos e tantos outros escritores.  
Também como forma de lembrá-lo, reproduzo abaixo o texto que publiquei no Jornal Tribuna Popular, Santo André, em julho de 1998, por ocasião da celebração dos seus 70 anos.


foto Rosani Abu Adal


Os setentanos de Caio
Cario Porfírio Carneiro, o reconhecido  contista de Trapiá (o primeiro livro, em 1961) a Mesa de Bar (o mais recente – Ed. Toda Prosa, SP, 1997) com cerca de outros 15 títulos entre os dois, dentre os quais se inclui o romance Sal da Terra, de 1965 (Ed. Civilização Brasileira), êxito editorial com reedições posteriores e traduções em diversas línguas, faz 70 anos em plena atividade de escritor e eterno guardião da União Brasileira de Escritores, São Paulo, entidade onde há décadas exerce o cargo de Secretário Administrativo, extrapolando essa função com a palavra sempre amiga que dedica aos escritores associados, bem como a dedicação e a paciência com que orienta os jovens escritores que o procuram, sempre com uma palavra e um gesto de incentivo.
Cearense de nascimento, há muito radicado em São Paulo, Caio recheia seus contos e romances com cenários que tanto podem ser rurais (reminiscências da infância e juventude) ou urbanos, por onde sua palavra segura transita. O crítico Fábio Lucas no prefácio de Viagem Sem Volta, aponta: “Após longa vivência do autor num centro metropolitano, o contrário é que se observa: mesmo surpreendendo suas personagens a se enredar no espaço rural, poder-se-ia dizer que as paixões que as movem guardam particularmente o estigma das preocupações urbanas.”. Mestre da narrativa curta, dos diálogos secos e parágrafos curtíssimos. É também nos silêncios sugeridos (e adivinhados) que essa habilidade se manifesta.
Caio completou dia 1º de julho 70 anos. Sua obra está inscrita na melhor linhagem da prosa de ficção brasileira, que vai de Graciliano a João Antonio  e merece ser festejada tanto quanto o merece o grande ser humano que é.
De minha parte, fica a homenagem, em forma de depoimento e recordação: Caio foi o primeiro escritor “de verdade” que eu conheci na vida, “em carne e osso”.  Era 1971 e eu, metida a repórter, entrevisto Caio para um jornal de uma entidade cultural, o CORB, que eu frequentava. De quebra, Caio ainda estava acompanhado de Paulo Dantas. Aproveito a ocasião e entrevisto os dois, de quem fico admiradora confessa, acompanhando desde então a carreira de ambos através da leitura de todos os seus livros que vieram a ser publicado após aquela data.


Caio faz setentanos. Viva Caio e sua vida inteiramente dedicada ao livro e à literatura. 

sábado, 8 de julho de 2017

Estranhos Estrangeiros


Postei este texto no facebook, mas como a rede social é mais, digamos assim, volátil que este meio, ou seja, o blog, que armazena textos e é localizável, republico-o aqui com alguns acréscimos:

foto Manuel Filho

“Foi assim: era uma vez um menino nascido em SP que veio para São Bernardo do Campo ainda pequeno. Ali, numa biblioteca com nome de escritor, Monteiro Lobato, descobriu a possibilidade de outros mundos para além do seu. Os bibliotecários de então, gente que  percebe as ânsias dos frequentadores, fecharam os olhos para os livros “proibidos” que o menino escolhia par ler e o deixaram viajar à vontade. Esse menino, já crescidinho, foi conhecer “in loco” outros mundos, reais, sem abandonar aqueles dos livros. Acabou estudando na Sorbonne, virou mestre e doutor nessa prestigiada Academia, em Paris. Valendo-se dos mundos armazenados na infância que foram se acumulando ao longo da vida, passou a criar pontes para que os criadores desses mundos pudessem transitar e, sobretudo, e encontrar. Neste julho, ele novamente atravessa o Atlântico, e, no caminho, vai ligando palavras e seres, fazendo-os cruzar as tais pontes. Desta vez, com parada obrigatória na cidade de sua infância, mais precisamente, na Biblioteca de sua infância. Convida algumas dessas vozes criadoras de mundos e os reúne exatamente lá, no local onde descobriu as primeiras. Mais uma vez, os bibliotecários e toda a gente que lá havia foi condescendente e topou a parada com muita garra e contentamento. A casa encheu de gente para ver/ouvir cinco escritores (Carola Saavedra, Lúcia Hiratsuka, Marcelino Freire, Marcelo Maluf e esta que vos escreve) por ele convocados e foi muito, mas muito gratificante estar lá no papel dessas vozes convidadas a falar sobre o tema proposto “Estranhos Estrangeiros”. Li, falei, mas, sobretudo, aprendi com escritores de outras gerações que não a minha, mas por quem muito me interesso. A idealização, a coordenação e a mediação de Leonardo Tonus, o menino descobridor de mundos, foi fundamental para que o encontro fosse transformado em epifania. O registro é de outro habitante do lugar, desde aquela mesma época, o agora escritor reconhecido, Manuel Filho. Bem hajam todos!”


Aquelas/aqueles que ali estavam passaram por deslocamentos territoriais, mas não só, transfiguraram esses estranhamentos em poesia, romance, conto, ilustração. Em comum, o sentimento constante de “estrangeiro”, o bárbaro que não fala a mesma língua e, como disse Marcelino, não cumpriu “o sonho dos pais em estudar administração de empresas ou coisa que o valha”. A/o estranha/o que espia o invisível aos demais e quando o diz já é outra coisa, ainda que a mesma. A memória é sempre um mistério e é também enganosa, posto que construída e recriada por quem se recorda. Depois de transfigurada e escrita, torna-se coletiva e pertence a quem dela quiser servir-se. Tenho refletido muito sobre isso, sobretudo após vários leitores críticos apontarem essas questões (do rizoma e da memória) em minha produção poética. O encontro da noite de sexta-feira 07.07.17 me instigou e pensar melhor sobre isso e, sempre que possível, transformar o lembrado pela língua da poesia. dtv

domingo, 2 de julho de 2017

71 anos hoje - testemunho

71 anos hoje – testemunho

nasci (como Amália)
no tempo (tardio) das cerejas
por essa razão o meu viver
foi/é tingido de encarnados
chama ininterrupta
para afugentar mornidões

tive amores (circunstanciais e um definitivo)
tive filhas que tiveram filhos e
meus netos são
nenhuma delas/ nenhum deles me pertence
o liame do amor basta, sem nós a sufocar o peito nem a vida

não quero ser jovem (nem sequer parecer jovem)
porque já fui e já não sou
tenho a idade que tenho e sou velha
sim, velha, sem atenuantes semânticos
tenho boa saúde, mas, seguramente
esta não é a melhor idade
apenas uma novaidade
sujeita a ventos e tempestades imprevistas
(mas há – e haverá  - a incomparável luz de outono
vista e sentida setenta e uma vezes)

de material, mais nada desejo
(exceto livros, vírus incurável e não transmissível que,
para minha frustração, não consegui transformar em epidemia)

tenho fomes, ainda
muitas fomes...
(e preciso de quem as mitigue comigo)
antes da lápide
              a vida em brasa
antes das cinzas
                o fogo


dtv 02.07.2017

E.T.: entrei no facebook já há alguns anos. não permiti que a data de meu nascimento fosse de caráter público, ainda que tudo que publico aqui o seja. não que me importe com o número de anos, informação que jamais escondi, mas como espécie de “teste”, a ver quem a lembra sem lembrado ser pelo robô cibernético. como mudam-se os tempos (e as vontades, sabia bem o poeta maior) hoje deu-me vontade. e só porque deu vontade, publiquei este “testemunho” e anunciei a data. também porque deu vontade, decidi que a data será festejada tanto quanto no ano passado, ou seja, durante todo o mês de julho. só porque estou viva e tenho fomes.
E.T.: originalmente publicado, nesta também, no Facebook


domingo, 11 de junho de 2017

Renata Pallottini – de viva voz

Meu sábado passado, 10 de junho, compreendeu uma verdadeira maratona poética de 5 horas (sem sair do lugar) na Casa das Rosas e posso dizer que nem saí cansada de tal empreitada.

Após participar do Sarau Camões, convidei Renata Pallottini  (que também participara) para um café, no Caffè Ristoro, um lugar aconchegante situado nos fundos, enquanto esperaríamos pelo início  do “Viva Voz”, um projeto da Casa, no qual um poeta é convidado para “falar sobre sua trajetória literária, seu processo de criação e outros assuntos relacionados à poesia e a suas conexões com a vida, bem como para realizar leituras públicas de seus poemas.” Ela (86 anos absolutamente insuspeitos): - café, só se for pra você, vou de vinho”. Fomos. Um chileno tinto e um salgado para garantir o estômago saudável.


Pontualmente, às 19h30, os “mestres de cerimônia” Reynaldo Damazio e Julio Mendonça iniciaram a entrevista/conversa com Renata, com Reynaldo lendo este belo poema:

Minhas velhas

As minhas velhas
Tinham lá os seus modos
De aldeias antigas:
Guardavam o dinheiro
Em lenços enrolados
Que depois enfiavam
No meio
Dos Seios

Era um dinheiro que cheirava a leite
A suor, a comida e privação

Um dinheiro sofrido e bom
Como o primeiro coito

As minhas velhas sabiam das coisas:
Fui eu que me esqueci.

(do livro “Chocolate amargo”, editora brasiliense 2008

Estava, assim, estabelecido o estado poético que foi pontuando o depoimento e as leituras de Renata que, do alto de suas vivências por Sampa (sempre), mas também Oropa, França e Bahia (e Cuba, país onde ministrou aulas de cinema), encantou a plateia, falando de sua diversificada e reconhecida obra literária que abrange ensaio, teatro, romance, poesia, sempre recheando sua fala com tiradas de bom humor e leveza.

Li este poema dela e para ela:

“No princípio criou Deus o céu e a terra.
                                                         Gênesis – 1:  1

Primeiro foi a noite. E a noite feita,
desta engendrou-se a luz, julgada oba.
Depois, fez-se o agudo desespero
do céu. E a terra. E as águas separadas.

E um mar se fez, da lúcida colheita
das águas inferiores. A coroa
tornou-se firmamento. “Haja luzeiros” –
ordenou-se às estrelas debulhadas.

Houve flores estáticas e flores
que procuravam flores; e houve a fome
de carne e amor e dessa fome as dores

e das dores o Homem. Deste, esquiva,
toda fome, sua fêmea, e no seu sexo,
mais uma vez a noite primitiva.
                                                         (6-9-1954)

in Livro de Sonetos, Massao Ohno, SP, 1961



Durou uma hora e meia e... ninguém percebeu. Perguntei-lhe como havia chegado à Casa das Rosas e ela: - "andando (minha casa fica a cerca de 500 metros daqui)". Detalhe: carregava uma maleta cheia de livros. E como voltará, a esta hora? - "Da mesma forma, caminhando" (dei um "toque" para uns amigos, no sentido de não deixá-la cumprir sua intenção, mas ainda não sei dizer se a cumpriu, senhora que é de suas vontades). 

sábado, 10 de junho de 2017

Camões, no seu dia - Um Sarau na Casa das Rosas

Um poeta sinônimo de sua própria língua, Luís Vaz de Camões.

Um país que celebra sua data nacional na data da morte de seu poeta maior e dedica essa mesma data às comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, Portugal.

Neste dia 10 de Junho de 2017, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, feriado nacional em Portugal, 437 anos de sua morte, Camões vive e é celebrado aqui, ali, além e em todos os recantos onde chegaram os lusos navegadores e se mais mundo houvera, lá teriam chegado. 


  
Foi hoje, neste mesmo dia 10 de junho, que, cheia de alegria e honra, participei de um belo momento evocativo da data. O Sarau Camões, organizado pelo Mestre/Poeta Carlos Felipe Moisés, integrou o Festival Camões na Casa das Rosas, decorrido durante todo o dia deste lindo sábado de final de Outono.




Fui uma das convidadas que deram voz à poesia de Camões e, de lambuja, ainda li poemas meus que, de alguma forma, dialogam com a poética camoniana. Um momento honroso e afetivo, estar naquela mesa, ao lado de velhos amigos como Carlos Felipe Moisés, Renata Pallottini e  Álvaro Alves de Faria, bem como ouvir vozes dos outros poetas convidados e igualmente amigos, como Flora Figueiredo e Ruy Proença, Victor Del Franco, além de ter a oportunidade de ouvir pela primeira vez os jovens poetas Leila Guenther, e Paulo Ortiz. Gerações diversas a celebrar a poesia de Camões na bela língua de Camões.














Teve até Jorge Luis Borges, evocando Camões, lido no original pela querida Renata que também surpreendeu o público, de improviso e fora do roteiro, cantando, de maneira deliciosamente bem humorada, uma antiga marchinha de Carnaval, paródia dos versos de Camões "As armas e os barões assinalados / vieram assistir ao carnaval./ cantando espalharei por toda a parte que o porta-estandarte vai ser seu Cabral". 


Dentre os textos de Camões que li, seleciono este Soneto 

Busque Amor novas artes, novo engenho,
Para matar-me, e novas esquivanças,
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê;

Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei porquê.

e este poema meu, também lido na ocasião (a sua benção Camões!).

educação pela palavra

                Estremeço. No coração. As letras vêm de lá
                 e da mão.
                                           Luiza Neto Jorge
    

de sua voz, pouco recordo
metida em seu pijama amarrotado
manhã adentro, olhos fincados
no jornal do dia
(os dias e os seus acontecimentos eram
o que pelo jornal lhe chegava)

à tarde, a bisavó letrada
(sempre dispensando os óculos
lia camões e folhetins franceses
em brochuras de papel ordinário
chegados de vapor
quinzenalmente)
tomava chá inglês

toda aquela devoção
à palavra impressa
(intuía a menina)
algum mistério continha
e passou a imitá-la

em segunda mão, os folhetins
e o camões indecifrável
lhe diziam que seriam entranhados
um dia, um dia...

       dalila teles veras in solidões da memória, Dobra Editorial/Alpharrabio Edições, SP, 2015

As fotos são de Luzia Maninha, a quem muito agradeço

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Apresentação do livro “solidões da memória” no Funchal


As trocas com a sempre gentil e disposta poeta, produtora artística e militante cultural Maria Fernandes existiam já há um bom tempo. Como responsável pela revista virtual A.Poética, propôs e, claro, pronta e vivamente aceitei, uma apresentação do meu livro solidões da memória na minha cidade natal, o Funchal, onde vivi até os 11 anos de idade.

O livro, que tem por tema a memória de minha infância, não poderia encontrar lugar mais propício para sua apresentação. A memória que retorna, em suporte de papel e poesia, ao local de sua gênese.
Foi assim que o evento aconteceu, no âmbito do belo e meritório projeto A.Poética, no dia 12 de novembro de 2016, na galeria Porta33, um lugar simplesmente espetacular.


Maria Fernandes, em nome da A.Poética

Maria cuidou de tudo, desde a busca do local para a apresentação e, nisso, foi muito feliz, dado que a Porta33, espaço ímpar, há 25 anos  é lugar de arte e de encontros, graças à paixão com que o casal Cecília Vieira de Freitas e Maurício P. Reis o conduz e que prontamente aceitou, sem quaisquer ônus, ceder suas instalações para o evento.


Maurício Reis, o anfitrião, abrindo o evento

Cecília Vieira de Freitas, a anfitriã, e a celebração com Madeira

Maria também cuidou do convite a três mulheres sensacionais que muito me honraram em apresentar o livro, cada uma à sua maneira e todas em altíssimo grau de competência intelectual e literária :   ; Irene Lucília Andrade, professora, compositora e escritora, autora de vastíssima e reconhecida obra literária). 


Ana Salgueiro, docente e pesquisadora na Universidade da Madeira

O mergulho crítico no "rizoma", a análise literária e honrosa da Dra. Ana 
Irene Lucília Andrade: Apontamentos poéticos de poeta para poeta


Teresa Jardim, poeta, professora e artista plástica: atentas anotações "plásticas/poéticas" 


e após os três surpreendentes estudos de sua obra, só restou à poeta poucas palavras (o essencial havia sido dito) e a leitura de um poema






Tudo isso, mais o comparecimento de um expressivo e, para mim, inesperado público, transformou aquela apresentação, em tarde ensolarada de Outono quase inverno, num memorável encontro.

E vieram os autógrafos



  





E as conversas e as trocas

e os afagos

e os abraços que foram muitos mas nem todos registrados

e a eternização da antiga e nova amizade, ambas tão importantes
E faltou registrar, graças também ao trabalho de divulgação da valorosa Maria Fernandes), a excelente repercussão na mídia local (jornais impressos, rádio e TV).

entrevista à RTP

Bem hajam todos!
O registro destas imagens devo à Luzia Maninha, a quem muito agradeço por isto e, ela sabe, muito mais. (dtv)






Breve depoimento, em forma de homenagem à Sra. Maria Letícia Rocco Casa


            Breve depoimento, em forma de homenagem à Sra. Marisa Letícia

            Vim para o ABC em 1967, trabalhar no setor administrativo de uma indústria multinacional de auto-peças, em São Bernardo do Campo. Ali, encontrei a possibilidade de ouvir (e, sobretudo, analisar) simultaneamente os discursos dos chamados “capitães da indústria”, meus patrões e os dos “Peões do ABC”, os que trabalhavam no chão da fábrica. Entre ambos, eu, menina analfabeta política ou politicamente equivocada que, por força do (bom) salário, tinha por obrigação “vestir a camisa” da empresa, valendo-me de um discurso que, obviamente, não era o meu. 
            Na virada dos anos 70 para os 80, O ABC demonstra uma grande capacidade de mobilização popular. A luta nas ruas estende-se também para os movimentos grevistas da indústria metalúrgica, alcançando conquistas de direitos trabalhistas de há muito sonhados que viria culminar na conquista da redemocratização brasileira em 1985.
            Aquela agudíssima consciência dos peões do ABC que lotavam o estádio da Vila Euclides, carregando seu líder nos ombros, despertou a minha consciência social, consciência política, de classes.
            É preciso sublinhar o importante papel das mulheres em todo esse período, em especial nas longas, exaustivas e desgastantes greves. Mulheres, que foram à luta em pé de igualdade com os homens, mulheres que lutaram por creches e outros direitos, mulheres que, juntas, e em seus múltiplos e estratégicos papéis, sustentaram de forma decisiva a manutenção das greves, tanto na resistência quanto na retaguarda das lutas.  Mulheres que a história tentou silenciar, mas não conseguiu e que estão recontando sua história nos últimos anos, através de pesquisas, depoimentos, livros, Congressos, Encontros e Seminários.
            Ainda assim, há todo um caminho por trilhar no sentido de resgatar o papel histórico da mulher. Lembro do meu querido e saudoso amigo Antonio Possidonio Sampaio (ao lado do meu marido Valdecirio, meus mestres nessa matéria de lutas e conscientização) que me dizia que era precisa incentivar o estudo da história dessas mulheres.
            A Sra. Marisa Letícia Lula da Silva, nascida Marisa Letícia Rocco Casa, de família de imigrantes italianos que veio para São Bernardo do Campo, SP, e deu nome ao bairro onde ela nasceu, “Bairro dos Casa”, foi uma dessas mulheres. É preciso sublinhar aqui que Marisa não foi uma mera dona de casa (ainda que o fosse também e com todo o respeito às donas de casa), mas uma militante política e sindical. Inesquecível a Marcha pela libertação dos sindicalistas, organizada por ela em SBC. Milhares de mulheres caminhavam ao lado de tanques, cavalaria, soldados fortemente armados. A praça da Matriz em SBC, transformada em verdadeiro campo de guerra. Por cima, helicópteros vigiavam seus passos. Não se intimidaram, seguiram.
              Casada com um líder inconteste, de projeção internacional, que chegou à Presidência da República e foi reeleito com uma então popularidade jamais vista por aqui, a Sra. Marisa Letícia tinha que ficar (ou foi obrigada a ficar), por conta do papel histórico que a prática da política e do poder sempre reservaram às mulheres, ou seja, na sombra. Ainda que na sombra (será?), foi força, conselho, esteio e jamais se prestou a nenhum papel decorativo. Foi o que foi, uma mulher digna e forte. Neste breve depoimento público, deixo a ela minha sincera e sentida homenagem. 
                        Nestes tempos, novamente tristes e sombrios, mas sem a mesma capacidade de luta e muito menos de consciência política e social, vejo, com grande pesar, as odiosas, machistas e misóginas manifestações que achei não tivessem mais lugar em plena segunda década do Século XXI. E fico triste de não ter jeito.



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Emigração, Memória e as Tarefas da Poesia - Dalila Teles Veras, no CEHA

Em novembro último, estive no Funchal, minha cidade natal, na Ilha da Madeira. Desta feita, foi uma temporada literária, sem deixar, entretanto, de ser igualmente afetiva, da qual voltarei a dar notícias.

A convite do CEHA - Centro de Estudos de História do Atlântico, participei do Colóquio  Mobilidades Madeirenses - em 2016 dedicado ao Brasil, sob tema "As Mobilidades no Espaço e no Tempo". Com muito atraso, é verdade, deixo aqui a versão condensada do meu depoimento (a que li durante o Colóquio). A versão integral, que constará dos anais do Encontro, poderá ser lida no meu site www.dalila.telesveras.nom.br

imagem: luzia maninha


EMIGRAÇÃO, MEMÓRIA E AS TAREFAS DA POESIA 

Antes de tudo, minha palavra de agradecimento ao dr. Alberto Vieira pelo honroso convite que fez com que esta poeta atravessasse o Atlântico para pisar e celebrar, uma vez mais, sua terra natal. Um honra e uma alegria estar aqui.

Sou filha de um lavrador, neta de um tanoeiro, bisneta de um ferreiro, ofícios nobres imortalizados na toponímia do Funchal.

nomear é jamais apagar
      
na toponímia do funchal
a história
(da cidade, dos meus, a minha)
na pedra grafada 

branco sobre negro
as placas contam
(vozes de cinco séculos)
o que ali se passou
os que ali habitaram
o que por ali se fez

na rua dos tanoeiros
leio homenagem oculta
ao anônimo artífice de barris
meu avô
que ali trabalhou e, morto
não foi apagado, vive
à vista dos passantes
branco sobre negro
a lembrar

Minha mãe, a mãe e a avó de minha mãe eram costureiras, mas todas sabiam igualmente bordar, habilidades inerentes às mulheres madeirenses. 

BORDADEIRA

É de risco esse teu ofício
urdindo pontos e riso
a conversa andando à roda
e os planos traçados no bastido.

Florista do tecido
enfias sonhos na agulha
traças linhas no destino
fatal e premeditado fiar.

A vida? Será ela em ponto cheio? / ou pespontada de sombras e granitos?
Meu ofício é a palavra. Gosto que me chamem de poeta e os poemas que acabo de ler são de minha autoria. De minhas memórias também faço poesia e crônica e diário e... Tudo é palavra. Este poema fala disso:

rizoma
    
a infância e a memória 
da infância, submersa
na líquida travessia

vez por outra
o atlântico deposita
ossos datados
nas terras do exílio

(a menina antiga
recebe os sinais
códigos esquecidos
legendas para o lembrar
- revivências)

a memória da infância
é a memória possível
(e só à poesia cabe recriar).

O pai de meu pai, o avô de meu pai, o bisavô de meu pai eram homens do campo. Arco da Calheta é seu lugar. Ali pegaram de galho e ali permaneceram.

SAGA

Ao pé dos semi-circulares montes
logo abaixo da Lombada
onde António por Isabel enlouqueceu
nasceu meu pai
o pai de meu pai
o pai do pai do meu pai.
Cavaram a terra, regaram-na
estacaram a vinha e os cachos de banana
colheram filhos e respeito
- a palavra por um fio de bigode.
Não bastou ao filho do meu avô
a placidez das regas
o banhar-se em oceânicas águas
o mergulho à busca de lapas e caramujos
atravessou-as – eterna busca
apelo nômade de árabe
ilhoa inquietação.
A América o engoliu
em seus múltiplos caminhos
devoradores de sonhos.
E a filha do filho do meu avô
tenta reconstituir a saga
e o sonho do regresso.

Após esta introdução, como se viu, com licenças poéticas, tentarei cumprir a orientação do honroso convite, ou seja, contar sobre a História da emigração de minha família e da minha afirmação no Brasil, país onde resido desde 1957. Uma autobiografia e, desde já, peço-lhes a devida paciência e compreensão. Este testemunho, sublinho, não obedecerá a nenhum rigor cronológico. Antes, Seguirá o fluxo das lembranças que ora recuam, ora avançam no tempo que, diga-se, jamais é linear.

Os poemas são pausa poética/ilustrativa, já que minhas memórias, transfiguradas e recriadas, foram objeto de partida para muitos poemas, em especial nos livros “Madeira: do vinho à saudade”; “estranhas formas de vida” e, o mais recente, “solidões da memória”, uma espécie de “trilogia das raízes”. Também porque a poesia é a forma em que melhor me expresso.

Pois bem... Dalila Isabel Agrela foi o nome que me deram ao nascer, aqui mesmo, no Funchal, em Santa Maria Maior, onde vivi até os 11 anos, quando embarquei com meus pais e irmãos para o Brasil. Agrela vem do Arco da Calheta, onde nasceu meu pai. Faltou o Olival materno que o machismo da época, inconsciente, acredito, assim como também perdoo, não permitiu incorporar. Vem lá da Freguesia de Santa Cruz onde nasceu o meu avô, pai de minha mãe. A estes, por amor, incluí o Teles Veras brasileiro, que também possui origem remota lusitana e que uso como sobrenome literário.

Meu pai, Manuel de Jesus Agrela, filho de pequenos proprietários rurais, nasceu no Arco da Calheta onde residiu e trabalhou no campo com seus pais até os 21 anos de idade, quando de lá saiu para servir o Exército, em 1941. Após o cumprimento do período obrigatório do serviço militar, cumprido em boa parte nos Açores, durante a II Guerra Mundial, retornou à Madeira em 1945. Homem de poucas letras, enfrenta, como é de se imaginar, toda sorte de dificuldades para seu sustento. Não queria voltar para o campo, onde seus pais viviam, pois apaixonara-se por minha mãe, Maria de Lourdes, uma menina nascida e residente no Funchal e era aqui que desejava também residir. Teimoso, decidiu ficar e empregou-se no comércio como empregado de mesa (no já extinto Café Riviera, na Av. Arriaga e no Café Apolo, ainda hoje em funcionamento. Em julho de 1946, nascia eu, sua primeira filha, concebida antes mesmo do casamento, decorrido em abril daquele ano, pecado inconfessável, a ser escondido a sete chaves durante décadas. Quinze meses depois de meu nascimento, ou seja, em setembro de 1947, nascia meu irmão, José Manuel.

A Europa devastada daquele período pós-guerra não oferecia, como sabemos, qualquer perspectiva para os menos favorecidos. A esperança, para alguns, estava no novo mundo. Em fins de 1949, à busca das acenadas oportunidades de trabalho, meu pai decide embarcar para a Venezuela, onde já estavam estabelecidos irmãos, cunhados e primos. Deixou minha mãe grávida do terceiro filho (minha irmã, Maria Floripes) e partiu, com o dinheiro da passagem emprestado por um irmão e a garantia de um teto, ou melhor, um catre nos fundos do estabelecimento comercial onde foi trabalhar.

Lá ficou por quase cinco anos, quando, com algum dinheiro amealhado e já proprietário de um pequeno comércio em Caracas, retorna à Madeira, adquirindo uma casa no Funchal. Volta logo a seguir à Venezuela, novamente sozinho, onde permanece por mais um ano, com a finalidade de juntar mais alguma coisa. Adquire um pequeno comércio no Funchal.

Aparentemente, a vida, finalmente, corria serena, mas nele volta a instalar-se algum tipo de vírus insular que impele o ilhéu para além do líquido horizonte e... A ilusória placidez pouco dura.  Em 1957 meu pai pede a um primo residente em São Paulo, uma “carta de chamada” para emigrar para o Brasil. Vende a casa e todos os pertences e, mesmo sob os protestos de minha mãe, embarca no paquete “Santa Maria” com destino ao Brasil (Santos), levando desta feita, a mulher e os três filhos. Era novembro e nos dezembros do resto de suas vidas, não voltariam a ver o fogo da passagem do ano no Funchal.

Para a criança, tudo, no entanto, era novidade e expectativa do novo, inclusive,  toda aquela azáfama da embalagem dos pertences considerados essenciais, (uma máquina de costura, alguma louça, uma espiriteira a álcool para cozinhar, algumas roupas de cama e mesa, roupas pessoais) e, agora sei, uma história de vida deixada para trás.

Embarcamos e a partir daí, a ruptura e o inevitável apagamento de toda uma história, esta, da qual agora lembro e relato.  

Constituem viva lembrança minhas férias de verão passadas na casa dos meus avós paternos, no Arco da Calheta, onde chegava após a “longa” viagem de “horário” ou de barco, o Gavião, se bem me lembro, a de minha preferência. Minha mãe não se adaptava aos costumes do campo, mas a menina batia o pé que queria e queria e... lá ía eu, sozinha. Minha mãe entregava-me a um passageiro qualquer  que lhe parecesse confiável, pedindo-lhe que fizesse o favor de olhar a menina até a Calheta, onde uma das tias a aguardaria.

Dos cheiros do verão, tenho presente o dos figos, das ameixas, das uvas, dos tabaibos, das anonas, mas nenhum deles supera o do pão a assar no forno da chamada loja, cômodo no rés do chão da casa assobradada, que servia de cozinha e dispensa. As tardes longas ao lado das tias em roda a bordar e bilhardar. Sim, na ausência de grandes acontecimentos, bilhardar em período de trabalho, era a fuga necessária à mesmice dos dias. Além das crianças e do meu avó paterno, já velho, sempre silencioso e que jamais saiu do lugar, não me recordo da presença de outros homens ali. Esse avô, Manuel como meu pai, além de trabalhar em sua própria terra, também trabalhou a vida toda no alambique do Engenho do Arco da Calheta.

Do campo, guardo também os sons das levadas e a rega da fazenda, por vezes na madrugada. A festa do Loreto e a participação, como mascote dançante do Grupo Folclórico da Calheta fazia parte das minhas atividades de férias. Sempre quis e sonhei dançar, mas, adulta, desaprendi. Com exceção da obrigatoriedade da reza coletiva do terço antes de dormir, suprema tortura, ali havia a liberdade que a cidade negava à criança.  

Do Funchal, dentre outras, está bem fixada na janela da minha memória, a escola Visconde Cacongo, no Bom Sucesso. Talvez para amenizar o medo imposto pela obediência e rígida disciplina ou, quem sabe, cometer um imperceptível ato de rebeldia pela poesia, candidatava-me a recitar Augusto Gil nas comemorações cívicas (“Batem leve, levemente, / como quem chama por mim... / Será chuva?  Será gente? / Gente não é certamente / E a chuva não bate assim...”). De nada adiantou a demonstração da veia poética da apaixonada declamadora mirim. Quando menos esperava, a implacável prof. Laurinda de Albuquerque, ergue a palmatória e aplica meia dúzia de bolos em cada uma das frágeis mãos da menina, mágoa jamais superada. O episódio foi recriado neste poema:


Fragmento

A palmatória crescia, crescia...
o pânico dos meus olhos assustados
o ódio por detrás dos óculos
e do rosto afogueada da professora
Dinastia Filipina? Dinastia Filipina?
A palmatória a crescer... a crescer...
eu tinha apenas 10 anos
e tentava compreender
que relação poderia haver
entre invasão espanhola
e aqueles vergões vermelhos
em alto relevo desenhados
nas palmas de minhas mãos.


A austeridade daqueles tempos era quebrada com raros passeios, incluindo aí algumas romarias. Não havia brinquedos, além de uma ou outra boneca de pano feita pela mãe. Inventava-se e tudo servia, como bichinhos feitos com semilhas e palitos, o jogo de pedrinhas. Gostava de fabricar joeiras com meu irmão e soltá-las em dia de vento. A primeira e única boneca, comprou-a meu pai nas Canárias, onde o barco que o trouxe da Venezuela fez escala. Um verdadeiro prodígio, estrondoso sucesso na vizinhança, que também virou poema.



Voltemos para a nova terra, a nova vida, através deste poema:  


chegada
         
onze foram os dias
enjoo,  sarna e tédio
terceira classe
paquete santa maria

da terra prometida
primeiro, o recife
amarelos inaugurais

aos emigrantes, o
delimitado espaço
do porto, aos turistas
a cidade  (entre)vista
do cais

(aos que vinham
para o trabalho
ver o trabalho
era  o limite)

via-se
:
corpos gingantes, a estiva
torsos negros azuis suados

e o cheiro despudorado
do abacaxi a anular o resto

 (o brasil tinha cheiro
e era de ananás)

Ainda que a língua fosse a mesma, o choque cultural foi inevitável. Para além da diferença abissal da paisagem e da cultura, o constrangimento de cinco pessoas diante da nova situação, ou seja, o abrigo provisório num cômodo da casa de um primo. Depois, dois quartos alugados num porão úmido, até que a pequena casa fosse construída.

Decorrido um ano, ainda sem trabalho estável, pois a tal “carta de chamada”, uma espécie de contrato exigido pelo governo brasileiro para entrada legal de emigrantes no país era, naturalmente, regida por algumas regras. Uma delas era a exigência do trabalho “no campo”, detalhe que meu pai, na ansiedade da partida, não havia percebido antes. Assim, a ele não era permitido que se estabelecesse como comerciante na cidade, conforme era seu intento.

Uma vez mais, a recusa em ir para o campo, muito lhe custou. O dinheiro auferido na venda do pequeno patrimônio na Madeira fora gasto com passagens, construção da casa própria, além dos gastos com os chamados “despachantes” que cobravam altas taxas dos emigrantes para legalizar sua situação na cidade. Finalmente, documentos em mãos vazias de dinheiro, meu pai novamente é obrigado a vender a casa, morar de aluguel para, com o valor da venda, adquirir um pequeno comércio onde trabalhou por mais de duas décadas até sua aposentadoria.

Minha mãe, peça chave dessa saga, ainda que permanentemente lamentasse o que considerava uma decisão desastrada de meu pai, ou seja, a emigração para o Brasil, enfrentou, sempre com muita coragem, as mais dramáticas situações. Novamente, a contragosto, deixou o trabalho da costura para ajudar meu pai no que aqui (e lá também), chamava-se de “venda”. Jamais tiveram empregados. Com sua fluência em leitura e rapidez nos cálculos, era ela quem cuidava da contabilidade, da compra de mercadorias, do financiamento bancário e ajudava nas vendas, além de exercer a dupla jornada de trabalho destinada às mulheres, ou seja, cuidar da casa, da alimentação e dos filhos, assim como mandava/manda o patriarcado.

E lá íamos, aclimatando-nos aos trópicos. Alvos de curiosidade, eu e meus irmãos, em poucos meses, falávamos já como brasileiros. O receio de “ser diferente” e o desejo infantil de nos “igualarmos”, inclusive para não sofrer o preconceito que, sim, existia e existe. Menos agora do que antes, é bem verdade. O português era visto como um ser pouco dotado de inteligência e alvo de muitas piadas.

As dificuldades iniciais, à medida que os mais jovens abriam caminho para a família adentrar aos hábitos e costumes da nova terra, foram superadas.

Uma curiosidade: minha mãe gostava de fazer e de recitar trovas populares. Tinha por hábito criar uma trova para cada ocasião festiva. Certa feita, na tentativa de ajudá-la a superar uma depressão, pedi que anotasse aquelas que sabia de cor. Em pouco tempo, havia anotado mais de 150 trovas que organizei e publiquei num livreto, sob o título “trovas populares madeirenses”. Gostava muito de ler e também citava provérbios. Muitos deles, eu, meus irmãos e minhas filhas, recordamos até hoje.

Do lado paterno, 6 dos 8 irmãos, aí incluído meu pai, emigraram para o Brasil. Todos para São Paulo. Minha avó, já viúva e com mais de 80 anos, também foi para o Brasil, juntar-se aos filhos e lá morreu, já perto dos 90 anos. Os descendentes desses tios somam hoje mais de uma centena de pessoas. Todos se conhecem e se relacionam. Como era de hábito no Arco da Calheta, ainda os chamamos por “fulano” de “fulano”, ou seja, o José da Conceição, a Maria do Antonio, etc. Os outros três irmãos ficaram no Arco da Calheta onde, hoje, ainda vive boa parte de seus descendentes.

Minha mãe, na última década de sua vida, enfrentou uma doença cardíaca grave que a levaria à morte aos 77 anos. Meu pai, quatro anos mais velho, a ela sobreviveu, vindo a falecer poucos meses antes de completar 90 anos. Sempre gozou de excelente saúde e disposição. Ambos retornaram à Madeira, por apenas duas vezes, já em idade avançada.

Aos 16 anos, tendo concluído um curso prático de “Secretariado”, outro de datilografia e cursando a língua inglesa, fui trabalhar num pequeno escritório no centro da cidade de São Paulo. Dali, para a Federação das Indústrias de São Paulo e, três anos após, para o escritório de uma indústria metalúrgica na então efervescente cidade de São Bernardo do Campo, região metropolitana de SP. No início dos anos 60, a Indústria Automobilística encontrava-se em acelerado desenvolvimento. Era um tempo de pleno emprego. Quem possuísse bons conhecimentos de língua portuguesa, estenografia, datilografia, e, no caso de empresa estrangeira, conhecimento razoável da língua inglesa, recebia, como foi o meu caso, excelente salário. Tive uma carreira profissional exitosa, chegando a secretária executiva de Diretoria numa empresa multinacional.  

Em abril de 1971, 25 anos incompletos, empreendo uma viagem de retorno à terra natal, sozinha, refazendo, pelo ar, o trajeto que, menina, fizera por mar, 14 anos antes. Durante esse período, a comunicação com os parentes que aqui ficaram, foi mantida de forma intensa. Nessa primeira visita, encontrei vivos, meu avô materno e seus dois filhos, meus tios Alice e João Elmano, que residam no Funchal. No Arco da Calheta, dois tios, João e Gabriela, e seus descendentes, todos, tios e primos, com suas respectivas proles, que sempre me acolheram com afeto e viva simpatia.

Durante aqueles primeiros 14 anos de ausência da pátria primeira, e por muitos outros, até a chegada da comunicação virtual, as cartas, manuscritas, com aqueles adoráveis envelopes adornados com bandeiras coloridas, cruzavam o Atlântico.  Falavam do cotidiano, da saúde, do emprego, da situação financeira, dos que emigraram e retornaram, dos que não mais retornaram, enfim. Guardo uma boa quantidade delas comigo e noto que havia sempre muitas queixas. Pouco se falava de alegrias. Fotos, antes do advento da fotografia digital eram mais raras, mas, vez ou outra, eram trocadas. Assim, de carta a carta, de telefonema a telefonema, de abraço a abraço, fomos mantendo os laços e os afetos.

A minha chegada à Madeira naquele já distante ano de 1971 foi recebida com muita surpresa e curiosidade. Fui uma das primeiras da família a retornar.  Disse-me um primo, aqui há uns poucos anos, que o Arco da Calheta ficou em polvorosa quando pela primeira vez ali chegou uma mulher (eu), a conduzir um automóvel.

Em 1972, aos 26 anos, casei-me com o então recém-formado advogado Valdecirio Teles Veras, que viera do Piauí, seu estado natal, no Nordeste, estudar em SP onde se radicou. Hoje, é cidadão português, por direitos legalmente adquiridos e afinidades eletivas. É meu companheiro eterno de incontáveis viagens e meu incentivador em todos os quesitos da existência. Como é tradição, hoje também aqui presente, ao lado de sua irmã mais nova, Luzia, que tenho na conta de filha e que pela primeira vez visita a Madeira. Temos 3 filhas, Carolina, Isabela e Alice, e quatro netos, Filipe, André, Murilo e Iara. Todas as filhas com formação universitária e carreiras consolidadas.

A ausência de formação superior formal não me impediu a busca por conhecimento que sempre foi o meu objetivo. Não só o conhecimento instrumental, destinado ao trabalho, mas o referente às humanidades, sempre foi e é alvo de minha curiosidade e interesse. Nessa empreitada, tive no hábito da leitura, meu maior aliado. Sou feita, portanto, do que li.  Desde muito cedo descobri minha vocação para as letras. Colaborei em publicações literárias. Assinei coluna em um jornal diário por vários anos. Publiquei meu primeiro livro aos 36 anos. Sou autora de mais de duas dezenas de livros, nos gêneros poesia, ensaio, crônica e diário literário. Dedico-me também há mais de três décadas ao ativismo e à promoção cultural. Por essa minha atuação pública, em 2004, a Câmara Municipal de minha cidade outorgou-me o título de cidadã honorária. Há 4 anos integro, a convite, o Comitê de Extensão Universitária da Universidade Federal do ABC, assim como integrei em outras ocasiões comitês e comissões em outras universidades.

Após 45 anos de residência no Brasil, optei por requerer a chamada dupla cidadania. Vários motivos levaram-me a tomar tal decisão: havia já componentes de “brasilidade” que incluía minha participação ativa e “militante” na vida cultural e política de minha cidade e região. A burocracia oficial fazia questão de me lembrar da condição de estrangeira, ou seja, a renovação periódica do meu documento brasileiro de identidade. As longas e demoradas filas dos guichês reservados aos “estrangeiros” nos aeroportos brasileiros. "Estrangeiro aqui como em toda a parte", habitante de "pátria incerta" lembrava-me o nosso Poeta.  Nem de lá, nem de cá e, neste caso, a língua me servia apenas de teto, faltava-me verdadeiramente uma pátria, na qual pudesse exercer efetivamente minha cidadania.

Após um ano de certidões e burocracias consulares, finalmente obtenho, em 2002, o “certificado de igualdade e de outorga do gozo de direitos políticos”, sem abrir mão da minha naturalidade portuguesa. Ato contínuo, cuidei de tirar o meu “título de eleitor” para, enfim, exercer minha cidadania (quase) plena. Para minha decepção, sou informada de que a obtenção da dupla cidadania não me concedia o direito a um passaporte brasileiro. Portugal concede passaporte português aos brasileiros que a requerem e o Brasil não faz o mesmo em relação aos portugueses. A contrapartida da “dupla cidadania” não é verdadeira. Jamais me conformei com isso. Munida de meu passaporte português, do qual, diga-se, muito me orgulho, passei a me dirigir apenas às filas destinadas a brasileiros nos aeroportos do Brasil e, ainda com alguns problemas, jamais fui barrada. Finalmente, há muito pouco tempo decidiram que os cidadãos com dupla cidadania entrariam no Brasil pela porta da frente.
A propósito desta minha pequena história que é a de tantos, e já encerrando, gostaria de lembrar que vivemos tempos difíceis e violentos, absurdos tempos de intolerâncias e xenofobias planetárias. . Em regime de urgência, precisamos aprender a conviver com alteridades, exercer a fraternidade com os que vieram de longe por contingências as mais diversas e, muitas vezes, dramáticas. Os portugueses, e os madeirenses em particular, por essa incalculável diáspora pelo mundo, mais do que ninguém e mais do que nunca, precisam acolher aqueles que aqui chegam à busca das mesmas oportunidades que os seus antepassados igualmente foram buscar em outros tempos e lugares.

Encerro com este poema, que, sinteticamente, talvez diga mais de mim do que todo este longo e maçante depoimento. O poema faz parte do meu livro “solidões da memória”, recentemente publicado no Brasil, inteiramente composto por poemas que evocam minha infância na Madeira, falam também da ruptura da travessia e do olhar crítico no retorno à ilha. Em síntese, aquilo que aqui evoquei.

 Confidência da madeirense

                      Alguns anos vivi em Itabira.
                      Principalmente nasci em Itabira.
                      Por isso sou triste,
                      orgulhoso: de ferro.
                             Carlos Drummond de Andrade, o maior poeta brasileira do séc.XX,
                                                                                                   bisneto de madeirenses

alguns anos vivi na madeira
principalmente nasci na madeira
por isso sou melancólica, teimosa: urze
de nascença, em luta frente às intempéries
(do solo, do vento e das vagas marítimas)
alma em permanente desassossegar

da madeira nada de material veio comigo
e não há nada que eu possa ofertar
mas da madeira vem este ar atrevido
a língua maldicente e áspera
e o hábito de tudo reclamar
atavismos que a consciência, por vezes
                                 rejeita

a madeira não é apenas fotografias
é a memória real dos precipícios
                            e das vertigens
encordoamento 
        do que não parecia lembrado
                             mas é
a memória do que não foi
                       mas poderia
                       e sequer dói

Obrigada

Funchal 10.11.2016
dalila teles veras