sábado, 25 de abril de 2015

Mísia - Fado, portugueses em São Paulo, 25 de Abril

Chegamos cedo. A noite tépida outonal convidava e a espera aguçava a curiosidade.


Teríamos um "show de fados - Mísia e Pedro Moutinho" em "Comemoração do 41º aniversário do 25 de Abril a revolução dos Cravos que restaurou a democracia em Portugal - Apresentação dos cantores Mísia e Pedro Moutinho.", anunciavam os cartazes (sic).
A Casa de Portugal ocupa um belo, mas sombrio edifício, no chamado centro velho de São Paulo, região igualmente bela e sombria. Está lá há 80 anos e tem histórias relevantes nessa trajetória luso-brasileira. Trata-se, portanto, de uma respeitável senhora entrada em anos a quem devemos relegar eventuais falhas e faltas. Como ali não se faz nada que não seja, antes, acompanhado de acepipes, lá estavam os bolinhos de bacalhau,  alheiras e vinho. Não sem alguma ternura, observo, enquanto espero,  fisionomias "familiares" sem que lhes conheça nomes ou sobrenomes. "Familiares" porque, afinal,  nos une a condição de "emigrantes" que para esta megalópole vieram e "brasileiros", como eu, se tornaram. Estão ali, não pelos pastéis, alheiras ou vinho. Ali vieram para resgatar um elo, frágil que seja, que a pátria primeira insiste em ligar suas memórias. A mesa e a memória dos sabores primevos é o primeiro impulso, depois vem a memória sonora, aquela que estabelece o elo estético, por mais rude que tenha sido a infância de muitos deles. Vieram, viram, venceram, ficaram. E como o retornado de Camilo, acalentaram por muitos anos o sonho do retorno, mas jamais voltaram e, se ocasionalmente o fizeram, foi para se reconhecerem naquilo que um dia foram e que não são mais, ainda que marcas indeléveis do rizoma insistam e forneçam sinais e, por vezes, provoquem dores não identificáveis.
Muitos cabelos brancos, algumas bengalas, próstatas que obrigam a levantar algumas vezes durante o espetáculo. Pouco importa, é preciso estar ali para identificar ou tentar identificar o que se foi/é. É fado? Vamos! E foram, muitos. E não sabiam, ao menos grande parte deles, sequer quem era Misia, mas era fado... Foram.
Com todo o meu carinhoso respeito e que me desculpe o jovem fadista que abriu o espetáculo, mas quando Misia subiu ao palco, com seu elegante vestido negro e uma enorme rosa vermelha ao peito, silhueta de bailaora andaluz, mas de legítima essência lusitana, toda a memória do que ali se passara antes, simplesmente desapareceu (ao menos para mim que ali estava, mais uma vez, rendida).  
Até a fúria inicial dos celulares (essa odiosa prática dos nossos dias) foi amainada, tamanha era esta nova "fúria", a da arte de Misia, que ali se instalava. O primeiro número foi, eu diria, revestido de uma certa "neutralidade" de ambas as partes, momento de reconhecimento entre palco e plateia. Já no intervalo entre este e o segundo número, Misia evoca Amália com reverência e justiça, referindo-se ao coro da plateia que fora ouvido momentos antes, ao entoar,  junto ao Pedro Moutinho, o fado "Nem às paredes confesso", pontuando que "Amália está cada vez mais viva e o coro é prova disso".
A partir daí, a empatia acontece e sua presença passa a preencher todos os espaços, do palco à plateia e a invadir todos os sentidos. Simplesmente hipnótico. Quando sua poderosa voz, antes mesmo da introdução da guitarra, à capela, ecoou naquela sala quase centenária, soube-se que não se estava diante de apenas mais uma fadista, mas de uma quase entidade, expressão legítima de um sentimento genuinamente português. Ali estava alguém que parecia não ser dali, mas ao mesmo tempo pertencia a todos que ali estavam.
Misia, uma vez mais, demonstrou que jamais esgota suas possibilidades interpretativas, não só interpreta o Fado de uma maneira única, como também reflete e faz refletir sobre esta canção tão urbana, tão portuguesa/universal e, diga-se, depois de Amália e Mísia, tão literária. Nada nela é linear ou sossego. Nada em Misia faz concessões à facilidade, mas ao desassossego. Mas, por mais paradoxal que seja, tudo nela é tão claro e luminoso que essa complexidade torna-se tão natural para o receptor que a empatia torna-se imediata, dando-nos a sensação de isso é "tão simples" e "natural". Misia vai com muita facilidade desse enganosamente simples ao dramático extremo e, nisso é imbatível. Primeiro porque há que se ter o fado nas entranhas, o que se vem a chamar de talento, depois, porque é preciso chão e vivências para chegar ao grau de dramaticidade a que chegou esta artista. Tudo nela é representação e, por essa imensa capacidade de estar no palco e representar, é que tudo nela, afinal, é verdadeiro, dramaticamente verdadeiro.
Estávamos, portanto, diante de um patrimônio da língua e da cultura portuguesa, uma artista que, como ninguém, representa para o mundo o moderno Portugal, sem jamais deixar de estabelecer conexão com a tradição.
Sem jamais abrir mão do Fado Menor, no qual é simplesmente inigualável, passa por inúmeros outros gêneros, apropriando-se de culturas outras (espanholas, francesas, brasileiras), ora transformando-as em fado, ora mantendo-as em suas tradições às quais introduz um toque misiano (e fadista) inconfundível.
Lá pelo meio do inesquecível recital, no qual Misia cantou literatura (Fernando Pessoa, Agustina Bessa-Luiz, Fernando Pessoa, Saramago, dentre outros) veio o grande tributo a Amália. De forma emocionada e emocionante, interpreta "Tive um coração, perdi-o", versos da própria Amália e música de José Fontes Rocha. Foi aí que se deu o que Amália chamava de "Acontecimento". O Acontecimento, ou seja, as alturas a que podia chegar e a que Mísia, ao homenagear sentidamente Amália, chegou. Para quem  atentamente acompanhava o recital, não foi difícil perceber que naquele momento o "Acontecimento" se deu, a ponto da visível emoção da intérprete, fio condutor mais do que perfeito, conectar com a plateia, igualmente emocionando-a. Culminância dos sentidos e do ato de cantar e comungar. Momento único em que a discreta lágrima da artista, ao final do número, comprovou.
O último número veio com a boa notícia de um novo trabalho, para Amália e com Amália, a sair em outubro. Para ilustrar e aguçar a expectativa, um fado de Mário Cláudio para Amália, em absoluta primeira vez. No bis, insistentemente solicitado por uma plateia já cativada, uma canção brasileira de um dos mais brasileiros dos nossos compositores, Dorival Caymmi (uma canção de 1941, em parceria com Jorge Amado, inspirada no romance deste último, Mar Morto), a bela "É doce morrer no mar", já agora Fado, na voz e interpretação de Misia.
Estava cumprido o propósito do espetáculo alusivo ao 25 de Abril, sem que uma só palavra da artista o tivesse dito. Mas o Portugal pós 25 de Abril ali estava, o Portugal moderno e democrático, mesmo com todos os percalços, rupturas, equívocos, desvios, esquecimentos dos ideais daqueles já distantes anos. Uma noite para não esquecer.

Em tempo: abaixo, uma gravação do bis (amadora), por um agente secreto por mim contratado (licença poética sem fins comerciais), que roubartilho.

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