quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Paixão movida por compromisso - SETENTA anos, poemas, leitores - comentário crítico por Rubens Shirassu Júnior

Reproduzo abaixo, uma leitura crítica da minha antologia SETENTA anos, poemas, leitores, por Rubens Shirassu Júnior, publicada em seu blog: http://rubensshirassujr.blogspot.com.br/

Paixão movida por compromisso
  
“Meus poemas têm fome de humanidade e, contrariando o poeta, podem dizer o que penso ainda que eu, através do artifício da linguagem, induza o leitor a pensar que é ele que assim pensa. A função do poema, originada nas fomes, é justamente provocar outras fomes. Meus poemas têm fome do mundo que me cerca e das coisas que, de alguma forma, me perturbam e desassossegam.”

( Da entrevista Sobre poesia, ainda: Dalila Teles Veras, do blog Contra tanto silêncio, de Tarso de Melo. )


Rubens Shirassu Júnior


            Para comemorar sua vida e obra, a poeta Dalila Teles Veras lançou Setenta - Anos, Poemas, Leitores (Alpharrabio Edições, 110 páginas, Santo André, São Paulo - 2016). Uma antologia de setenta poemas escolhidos dos quinze títulos publicados pela escritora ao longo de 34 anos de intensa vida artística e ativismo cultural. Os textos que ilustram as páginas foram carinhosamente escolhidos por 70 convidados (escritores e amigos da poeta) de diferentes idades (desde o neto de Dalila de oito anos a outros com mais de oitenta) e de formações e interesses diversos.
            O cabedal lírico da poeta foi reforçado pela leitura de muitos poetas portugueses e brasileiros. Trinta poemas do livro trazem uma epígrafe de referência, a exemplo de Vias Oblíquas e Abismos na pequena seleta abaixo. Princípios, temporais, horizontes, altitudes – assim Dalila equaciona sua viagem, numa só voz. As epígrafes são pequenas interferências, pausa para que os poemas respirem a diferença, que os conjuga, os irmana, tanto quanto alguns poemas aparentemente isolados, tornam-se paradigmáticos por excelência. Um estudo das epígrafes na poesia brasileira moderna teria muito a dizer dos caminhos e descaminhos de nossa lírica – mas isto é uma outra conversa, para outra hora, outro espaço.
            Dalila Teles Veras, gosta de exprimir, de modo conciso, o que vê e sente em poemas que oscilam entre a inquietação, o tédio, a angústia e uma grande lucidez e capacidade analítica, junto ao lirismo e à afetividade e, acima de tudo, à paixão movida pelo comprometimento.
            No entanto, Dalila é voz mais que solitária em sua geração; voz condenada, diga-se de passagem, a uma feliz solidão. A sua erudição e a sua, se assim posso chamar, desenvoltura rítmica a mantém isolada dos grupos mais recentes. Neles, a artificialidade, o excessivo das paráfrases e das colagens, que nos últimos anos têm tornado a poesia um exercício cansativo e repetitivo, sem força e sem rumo, fizeram de nossa paisagem poética um campo desolado. Foi exatamente a publicação de Setenta, que reverte esse quadro. Com esse livro recuperamos o ânimo de celebração, atualmente tão pouco presente em nossa poesia, e que só era mantido pelo vasto grupo que estreara nos anos 50 e 60, contrário a todos os ismos do período (sem contar com alguns remanescentes desse mesmo grupo, já nos anos 70 e 80, poetas ainda à espera de uma reavaliação à altura de sua importância), Dalila, talvez seja o nome que mais se destaque na geração que tem hoje de 60 a 70 anos de idade.
            Com ela, estamos de volta à terra magnética da poesia, da poesia genuína e eterna. Seu espírito, claro, é totalmente avesso ao neoparnasianismo disfarçado de neossimbolismo que é moeda vigente entre os novos, má prosa disposta em versos, ou das degenerescências pós-concretistas ou pós-cabralinas que assolam um vasto segmento da poesia contemporânea. Há exceções aí, mas são raríssimas.
            Para a poeta crivada de sons, rostos, imagens, aromas e paladares, a palavra é carnal, é volúpia do verbo, é encontro e pulsação. A palavra a serviço da poesia, uma poesia que raia o mediúnico, onde Dalila é a pastora da iluminação do verbo. A sua inteligência, a sua erudição e o seu fascínio pelo que há de humano na história do homem a aproximam da verdade das coisas mais simples. São atributos que em poeta de baixa voltagem fatalmente serviriam apenas de adorno. Sobretudo porque a simplicidade, em poesia e em tudo o mais, é trunfo só dos grandes.


III

Solitária garça
mergulha no rio
solitário homem
atira a tarrafa
fatalistas, bem sabem ambos
da incerteza do gesto

( Página 69 )

8 de março

Deram-lhe um dia
apenas um dia
(devem-lhe séculos)

 Na tentativa de remissão
as flores constrangidas
(homenagem tardia)

 ( Página 54 )

 Mater dolorosa
  
ventre crescido de miséria
murcho ventre – lembrança
sexo destituído de prazer
ventre inflado de ausências
ventre que não mais protege
ventre que não mais alimenta
sua própria matéria
  
( Página 67 )


As faxineiras do edifício

Surpreendentemente
(não obstante, os dez mil, quatrocentos e trinta e um degraus,
os oito mil, trezentos e vinte metros quadrados de piso, as
quatrocentas e quinze vidraças e as três toneladas de lixo à
espera de variação, transporte e limpeza)
cantam...

( Página 38)

 Elemento em fúria

 Ao pé das antigas tabuletas
grafitadas de sangue e esperma
foi desatrelada a canga
- campo de palha e fel

campesina
despiu as presunções
sobraçou as certezas
deter
minou
  
indignar-se
riscar o fósforo
centelha restauradora
- campo de figos e mel.

 ( Página 57 )

 Vias oblíquas

 “Porque parte tudo um dia
O que nos lábios ardia
até não sermos ninguém”

Paixões Diagonais, Miguel Ramos / João Monge


depois que a mulher voejou
levando consigo a
claridade dos cômodos e
décadas coabitadas, o
marido, no escuro
ensimesmado
deixou o cabelo crescer, o
mato tomar conta dos
canteiros o
pó cobrir móveis e assoalhos


sete luas após a mulher
levar consigo a sonoridade
da alcova, o marido
às claras e resoluto
reagiu
engaiolou dez pássaros e
registrou em cartório o
certificado de propriedade
dos novos moradores com
direito a concertos privados
  
( Página 37 )

Abismos

“Dizem as velhas da praia que não voltas
São loucas!
São loucas!”
      Barco Negro, David Mourão-Ferreira / Caco Velho / Piratini

diante de seus medos
um homem
com toda a fragilidade
de um homem
  
(na esquina do viver onde
a luz encontra as trevas e
prenuncia tormentas)

 um homem
que se recusa
assistir ao embarque
protagonizar a despedida

em desespero, agarrado
ao cordão, em vias de
um homem e seus abismos
incontornáveis

 ( Página 30 )
  
Bordadeira

É de risco esse teu ofício
urdindo pontos e riso
a conversa andando à roda
e os planos traçados no bastidor

Florista do tecido
enfias sonhos na agulha
traças linhas no destino
fatal e premeditado fiar
A vida! Será ela em ponto cheio?
ou pespontada de sombras e granitos?

 ( Página 60 )

SETENTA
anos, poemas, leitores
Dalila Teles Veras
Poesia Brasileira
Alpharrabio Edições
112 Páginas
Santo André – São Paulo

2016

domingo, 16 de outubro de 2016

Mulheres, Ressignificações e outras PerVersidades urgentes


Sábados PerVersos – a poesia em questão”  é um projeto que opera “milagres”.  Desde novembro de 2014, um grupo de interessados, reúne-se mensalmente, para ler e discutir poesia criticamente. A cada mês, um coordenador diferente, provoca os participantes, trazendo poemas à sua escolha e, eventualmente, textos críticos que, após lidos, são comentados e analisados. Ninguém arreda pé e as conversas, iniciadas pela manhã, estendem-se tarde afora. Em algumas das edições, a poesia de autoria feminina foi pesquisada, analisada, discutida. Hoje, Lenir Viscovini, professora, pesquisadora e socióloga (poeta também, ainda que não me deixe chama-la assim...), assídua frequentadora e colaboradora desses encontros, disse-me o seguinte:
“Refletindo ainda sobre aquele sábado perverso... Penso que considerar a ESCRITA FEMININA como resistência ao todo cultural, que deixa as mulheres às margens da cultura, é um posicionamento político, portanto, ideológico do feminismo. Como pensar que possa existir realmente uma cultura diferenciada sem repensar a história literária e poética, e nesse aspecto poder redimensionar qual é a posição que as mulheres têm ocupado? Acho isso tarefa de todas as mulheres comprometidas com uma poesia e uma escrita realmente libertária. Daí vejo ser fundamental a ressignificação do lugar ocupado como forma de resistência, posicionamento e auto-afirmação.”



Pois bem, ao receber essa mensagem, eu acabara de ler o romance de Micheliny Verunschk, “nossa Teresa – vida e morte de uma santa suicida” (Editora Patuá, 2014) e encontrava-me em estado de choque, como, aliás, sempre me acontece (e é desejável) ao fim da leitura de cada bom livro, caso contrário...  Nocauteada, estonteada, cética, fé cada vez mais cambaleante, tentei recompor os sentidos, lembrando que foi assim quando li, para ficar num tema análogo, o Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago.  Em ambos, três dias sem dormir, os demônios todos a me cutucarem com seus arpões untados de martirizantes questões, como religião, fé, memória, história, mas, sobretudo, o grande prazer estético de uma narrativa bem construída e escrita com originalidade.


Como não ser tocada pela proposta da Lenir? Como não pensar na questão da “Escrita Feminina”, quando lembro que foi assim também com o romance “Quarenta Dias” (Ed. Alfaguara, 2014), de Maria Valéria Rezende, leitura da qual saí rendida e transformada. Ainda sob o impacto da leitura, escrevi uma resenha no meu blog, sob o título “Quarenta dias em dois dias” que terminava assim:
“escrito na forma de diário e memória, o romance possui um ritmo que obriga o leitor a, ofegante, acompanhar os passos da personagem pelos subterrâneos de uma cidade e de uma mulher, ambos à beira do colapso e da ruína. Um romance que, por força de uma poderosa narrativa, nos põe diante de uma tela na qual pode-se assistir ao que se lê. E que ninguém se iluda com a linguagem (quase) coloquial, aparentemente desprovida de "trabalho". Ser simples desse jeito requer uma vida inteira de dedicação e muito, mas muito trabalho."


Foi assim, recentemente, também com o romance “Véspera de Lua” (Editora Penalux, 2a. edição, 20'5), de Rosângela Vieira Rocha, uma narrativa poderosa que mergulha no universo feminino, escrita com o corpo e sobre o corpo. Corpo de mulher, corpo que “parece não caber em si”, corpo que fala da dor e do desejo, de homossexualidade, das miudezas cotidianas, da miséria humana. Um romance que entrega a chave ao leitor apenas no seu final. Um romance escrito por uma mulher e que só poderia ter sido escrito do ponto de vista de uma mulher.

Não por acaso, os três romances foram justamente premiados, lidos e elogiados. Três socos no estômago, recebidos, para minha sorte, em momentos diferentes, caso contrário o impacto teria graves consequências físicas na combalida leitora.

Foi assim também com a poesia de Wislawa Szymborska, de Yu Xuanji, Anna Akhmátova, Sophia de Mello Breyner Andresen, Orides Fontela e tantas mulheres, minhas contemporâneas ou não, que só posso mesmo dar razão a Lenir e seguirmos na discussão e tentativa de “ressignificação do lugar ocupado” por elas, as mulheres e sua escrita. 

sábado, 8 de outubro de 2016

Lugares da Memória

Neste sábado, 08, a memória e suas consequências artísticas, ocupou a Casa do Olhar Luiz Sacilotto, em Santo André. Maura de Andrade e Teodoro Vieira, protagonistas do projeto “Lugares da Memória" .
Foi assim, o casal, inspirado na expedição dos colonizadores portugueses do Século XV no Brasil, resolveram refazer o caminho de Martim Afonso, na Capitania de São Vicente, João Ramalho, na Vila de Santo André da Borda do Campo, seguindo até a Vila de São Paulo de Piratininga, que hoje correspondem às cidades de São Vicente, Santo André (incluindo a Vila de Paranapiacaba), São Bernardo do Campo e São Paulo. Os caminhos, reais, foram percorridos durante 10 meses, sobre uma poderosa motocicleta. Anotações, fotografias e sensações foram se transformando pela arte, em gravuras, xilogravuras e fotogravuras. A esses juntaram-se textos, deles e de três convidados, residentes no caminho percorrido (São Vicente, São Paulo, Santo André, Roberto Grün, Marcos Atanásio e Dalila Teles Veras. Tudo isso virou uma exposição ("Lugares da Memória & sua Poética Visual" e o livro, “Lugares da Memória”.  A exposição foi aberta hoje e permanecerá aberta ao público até 29 de outubro, na Rua Campos Sales, 414, Centro Santo André, nos seguintes horários: terça a sexta-feira, das 10h às 17h, sábados das 10h às 15h. Na ocasião, também houve o lançamento do livro que foi distribuído aos visitantes. 



Aqui, o meu texto que integra o livro:

Do porto ao planalto – a memória dos lugares

O preparo para a aventura. O pai, desbravador de horizontes, ordenou: - vamos. Ele, a mulher e os três filhos. Eu, a mais velha dos três. O ano era mil novecentos e cinquenta e sete, quase no seu final. Uma carta de chamada enviada por um primo que já morava no Brasil. A venda da casa e de quase todos os pertences. Numa arca de madeira, uma máquina de costura, alguma louça, roupas de vestir, cama e banho, o essencial para o recomeço na terra nova. O embarque na terceira classe, destinada aos emigrantes, do paquete Santa Maria, partiu da baía do Funchal, na Ilha da Madeira, para a travessia atlântica. No mesmo mar das caravelas, o navio sem velas também carrega gentes e sonhos.  
Onze dias depois, a chegada ao porto de Santos. O impacto diante da grandiosidade da serra do Mar e a fabulosa engenharia da Via Anchieta, recém-construída, orgulhava e remetia aos conterrâneos navegadores que há cinco séculos subiram a serra em condições de maior coragem. No zigue-zaguear da subida, rumo ao planalto, o deslumbre misturado à expectativa. Das verdejantes sensações de então, da memória desses caminhos, muito depois, a menina não mais menina, construiria poemas, como este (do livro “solidões da memória”, Alpharrabio Edições e Dobra Editorial, SP, 2015)

do porto ao planalto, o choque
                       Se vens a uma terra estranha
                       curva-te
                                        Orides Fontela

íngremes e largos
os longos caminhos
vindos do mar (os mesmos
já outros) rumo ao
planalto - a terra nova
             (estranheza)
destino incerto e final

galgada a serra
(o mar fora da vista)
a metrópole
(o mar apenas lembrança)
velocidade e vertigem
(o concreto como horizonte)

desaprender
(premência menina)
para aprender a
(o preço da aceitação)
curvar-se
(cidadania inaugural)

Galgada a serra, trajeto de antepassados refeito, eis a cidade de São Paulo, o destino programado. Da fervilhante metrópole, as lembranças da então adolescente: o Viaduto do Chá, a imponência; a Praça do Correio onde chegavam e saíam os ônibus que me traziam e levavam à morada na Zona Norte da cidade; o trem da Cantareira; o bonde que levava toda família, nos domingos, à casa de parentes residentes no bairro da Penha. O Centro do início dos anos 60: a Rua Quintino Bocaiúva, o curso de datilografia no Instituto Brasileiro de Mecanografia; a Av. São João com Ipiranga, a escola Roosevelt do curso de inglês; a então muito elegante Rua Barão de Itapetininga, o curso de Secretariado, bem em frente à Confeitaria Vienense, onde um velho e curvado pianista, certamente do tempo de Mário de Andrade, animava o chá das tardes dos dias de semana; a Livraria Brasiliense nessa mesma rua, a delícia das delícias; dali ao Mappin, um pulinho e o deslumbre diante do consumo entrante;  primeiro emprego no Viaduto Dona Maria Paula; a taça de “banana split” na lanchonete da primeira das Lojas Americanas, na Rua São Bento. O sanduiche de calabresa com suco na lanchonete Califórnia (era esse o nome?). São Paulo dos anos sessenta era uma metrópole com recantos ainda interioranos e é nos escaninhos desse hoje chamado Centro velho onde residem minhas mais gratas memórias de São Paulo. Lugares guardados como pontos de identidade e identificação.

Hoje, ao percorrer esses caminhos, ausculto as narrativas que a própria cidade oferece, narrativas não escritas, mas inscritas no imaginário, o meu e o coletivo, com todos os seus sentidos.

1972 – o casamento, a mudança para o meio do caminho, o lugar de passagem, a chamada Região do Grande ABC.

a selva de outrora
selviliza-se, robotiza-se.

As sete cidades que são uma só, fronteiras abolidas, trilhos que ligam, rios e ribeirões, que separam e (re)unem. O ABC no curso maltratado do rio, destinos amalgamados.
O lugar de onde se avista o mar.

Samambaias enlouquecidas
bromélias encharcadas
manacás arcoirismando
lírios a rebentar brancuras
quaresmeiras pontuais
atlântica mata
do oceano já distante
: cenário.

Santo André, o lugar da morada, com seu Paço Municipal - Centro Cívico – modernista, novinho em folha (projeto de Rino Levi e paisagismo de Roberto Burle Marx, tombado em 2010 pelo Condephaat) e seu Teatro Municipal com espetáculos grandiosos em estreia nacional. Hospital e Maternidade Brasil, recém-inaugurado, nascimento das três filhas e de tantos andreenses. O lugar eleito. O lugar para nascer, viver e, quem sabe, morrer.
São Bernardo, o lugar do trabalho; a indústria, o automóvel, metalúrgicos, as greves, as lutas pelos direitos sociais, o surgimento de novas lideranças, operários e suas vozes, conquistas. A fundação de um partido político. O mundo de olho neste lugar já um pequeno mundo, dois milhões e meio de habitantes.

máquinas, máquinas. trabalho, trabalho.

O lugar também da palavra, do registro, do livro, das lutas literárias e culturais. O lugar da diversidade e miscigenação. Emigrantes, migrantes, gentes de todos os lugares. Culturas híbridas, amalgamadas etnias. A arte dessa aldeia é também universal.
Reinventa-se, e no perigoso reinventar, descuida-se. No permanente renascer, por vezes, mata-se. Diante da morte dos lugares, o registro da memória dos lugares. Este. (dtv)



segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Suposição Teórica - para Guedo Gallet

Deixo aqui um texto que publiquei na minha página do Facebook no último dia 15.09.2016:
Para meu amigo Hugo / Guedo Gallet, que aniversaria hoje, este poeminha, nascido dia destes, a propósito de uma de nossas sempre instigantes conversas (a já tradicional "poesia do intervalo", com café). Com os parabéns, a homenagem e a minha admiração. 

suposição teórica
       para guedo gallet

se 
de oxigênio, carbono, hidrogênio, azoto, nitrogênio, cálcio, fosforo, potássio, enxofre, sódio, cloro, magnésio, ferro,, cobre, zinco, selénio, molibdénio, flúor, iodo, manganês, lítio, cobalto, estrôncio, alumínio, silício, chumbo, arsénio, vanádio e outras partículas químicas
é composto meu corpo
se
recebi todo esse material de um bilhão de estrelas (as identificadas)
se
esta minha complexa, mas minúscula máquina
há setenta invernos
diuturnamente
trabalha e pensa e cria e procria
não devo, não posso ser um mero acidente biológico
assim
quando minha luz pessoal
estrela ínfima, por fim, feito estrela
explodir
essa poeira, nada acidental
haverá de formar
outras, outras, outras e... outras dalilas
intergaláctica, serei cósmica
integrada, enfim



sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Ponto Corrente – Mulheres, repressão e teatro nô

Era uma noite de um dia tenso, aquela do dia 31 de agosto. 

Uma noite que trazia como presságio a possibilidade daquele dia que morria, vir a durar 20 anos, assim como durou um dia semelhante, no já longínquo 1964.

Carregada de abatimento, fui. Não poderia faltar. Afinal, ali, no palco do Teatro Municipal de Santo André, estaria o Grupo Pontos de Fiandeiras, com o espetáculo Ponto Corrente. Artistas de fibra, gente que admiro e acompanho com interesse, desde o primeiro trabalho. 

Ali, pelas artes da arte, aspectos da História de um obscuro período brasileiro, a ditadura Civil Militar (1964-1984) passava pelas mentes e corações do público presente, diga-se, em número surpreendente para um dia como aquele.

A peça, com a dramaturgia sempre sensível e elaborada de Adélia Nicolete, é o resultado de exaustiva pesquisa do grupo Pontos de Fiandeiras, sobre mulheres ativistas no ABC nos anos 60 a 80. Mulheres que não esmoreceram, ainda que o silêncio imposto pelas circunstâncias e cultura machista tentasse, sem êxito, o apagamento de seu papel.

Maria da Graça, Maria da Fé, Maria das Dores, Maria Auxiliadora, mulheres que sustentaram, nos bastidores, mas sempre de forma decisiva, a manutenção das grandes greves de 1979 e 1980 na região. Marias que, na linha de frente, lutaram por creche, moradia, mobilidade e outras causas sociais. Mulheres, cujos corpos lembram a desmoralização, mas que hoje “determinam onde é o seu lugar”. Marias que entristeceram quando ouviram os Joões dizerem que “construíram tudo sozinhos”, mas seguiram à busca da própria identidade. Marias que amaram até o limite do amor, na clandestinidade. Mulheres que já sabiam que “quem não conclama convoca os ditadores.  Mulheres que o grupo agora revela, através de sua pesquisa de campo, retirando-lhes os véus de suas respectivas histórias.

Mas é teatro... Diz o bordão da peça, que se vale de elementos do Teatro Nô e, como na vida real, de alegorias para camuflar verdades.

A metáfora do navio conecta os fatos de então (viagem, retorno ao recordar) aos dias de hoje. O elenco, composto pelas jovens e talentosas atrizes Camila Shunyata, Roberta Marcolin Garcia, Fernanda Henrique e Vivian Darini “materializa” de forma muito digna e verdadeira essas personagens saídas da vida real direto para o teatro.

Sim, é teatro, mas é tudo verdade e vale, para além do deleite da arte, também para reflexão sobre os dias que passam. 

Ao final da apresentação, a grata surpresa: chamaram a atriz Sonia Guedes, decana do nosso teatro andreense, presente na plateia, a quem homenageiam com uma fala no final da peça. Tudo muito singelo, tudo muito bonito.


Tudo aquilo, confesso, acabou me deixando, como diria o Poeta maior, “comovida como o diabo”.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Poesia Sem Quartel - Casa das Rosas 13.08.2016

No último sábado, 13.08.16, na Casa das Rosas, em São Paulo, participei do recital “Poesia sem Quartel”, sob a curadoria de Hamilton Faria e Luiz Roberto Guedes. Uma noite muito significativa. Casa cheia de gente interessada. Verdadeiro momento de rebeldia poética. O passado tristemente lembrado, contra um presente incerto.



Havia preparado um texto para ler na ocasião, mas percebi que seria impossível dize-lo nos 10 minutos que haviam reservado à minha participação. Assim, li uma versão mais condensada, apenas com o poema de Lea Aparecida de Oliveira.

Deixo aqui a íntegra da primeira versão que vai além e lembra e homenageia outras pessoas:  

De acordo com a crendice popular, este é o mês de cachorro louco e este dia é do azar. A poesia está aqui, como sempre, para desconstruir e reafirmar outras verdades fora das paredes estabelecidas.
No dia 1º de abril de 1964, uma quarta-feira cinzenta, 18 anos incompletos, estagiária na FIESP (quem diria!), fui dispensada do trabalho junto aos demais funcionários. “Fiquem tranquilos, o país passa por uma revolução democrática”, disseram-nos, e eu, analfabeta política, acreditei. Era, sublinhe-se, literalmente, um Primeiro de Abril.
As Manchetes dos principais jornais dos dias seguintes, reforçavam a orientação dos meus patrões: “Vitorioso o movimento democrático”, O Estado de São Paulo. Ressurge a Democracia. Vive a Nação dias democráticos”, O Globo. “Lacerda anuncia volta do país à democracia” Correio da Manhã, entre outros.
O setor em que eu trabalhava era o das comunicações, ao qual estava ligada a sessão da imprensa, onde trabalhavam, dentre outros, o jornalista e já então poeta de 2 livros publicados, Álvaro Alves de Faria de quem me tornei admiradora e amiga desde então, e que iniciaria no ano seguinte um movimento, dentre os muitos outros à época, de recitais públicos na ruas e praças de São Paulo que resultaria, nesse mesmo ano no livro O Sermão do Viaduto. Era já, a poesia sem quartel, mas que mandava os poetas para os porões fétidos de um quartel, o DOPS.
E de sermão em sermão, de notícias e não notícias, fui me alfabetizando politicamente.
Em 1967 vou trabalhar, no cargo de secretária administrativa, numa indústria multinacional de autopeças em São Bernardo do Campo, no chamado Grande ABC, região metropolitana de São Paulo composta por sete municípios (S.A., SBC, SCS, Diadema, Mauá, R.Pires e R.G.S). O contato com outra realidade, ou seja, a possibilidade de ouvir simultaneamente e comparar os discursos dos capitães de indústria, meus patrões, bem como, gradualmente, também o dos peões, novos personagens que no final dessa década, início da seguinte, entrariam de forma surpreendente na cena nacional brasileira, através das lutas operárias travadas e inegáveis conquistas sociais.   
1968, atenta ao mundo, a revolução comportamental deflagrada em Paris desperta de vez a consciência e me faz olhar mais agudamente para o Brasil e o meu entorno. Em minha mesa de trabalho, uma reprodução de um grafite nos muros da Sorbonne que acabou virando slogan de toda uma juventude planetária da época: Seja realista exija o impossível. Era a minha ainda ingênua forma de ser “revolucionária” e a partir daí, foi na palavra e, posteriormente, na ação cultural que a minha “revolução” se deu. No final desse mesmo ano, com o AI-5, não havia mais como ignorar o que se passava no país.
Em 1972 caso-me com o advogado Valdecirio Teles Veras e fixo residência em Santo André. Valdecirio era assessor jurídico do Sindicato dos Metalúrgicos e foi meu professor de política, atualizando-me com as notícias que os jornais não davam. Devo a minha politização a ele e ao seu colega de lides advocatícias e literárias, o já muito saudoso Antonio Possidonio Sampaio, amigo-irmão a quem presto aqui uma homenagem. Por 44 anos, formávamos um trio inseparável. Devo a ambos também o meu interesse pela política no seu sentido mais amplo, o da participação cidadã, o interesse pelas políticas públicas que visassem o bem comum através da inclusão social.
Na virada dos anos 70 para os 80, O ABC demonstra uma grande capacidade de mobilização popular. A luta nas ruas estende-se também para os movimentos grevistas, emergência do chamado novo sindicalismo, exemplo para uma tomada de consciência política nacional. Os olhos voltados para a região do Grande ABC que se insere na moderna história do país, artistas brasileira capturam esse clima através de sua arte. Dentre muitos, lembro aqui  Leon Hirzman que leva para o cinema a peça Eles não usam black tie, de Gianfrancesco Guarnieri, que também assina o roteiro do filme, transpondo-o para o ABC. Antonio Possidonio Sampaio. São de sua autoria, romances imprescindíveis para compreender esse período obscuro e violento da vida brasileira, “Sim Sinhor, Inhor Sim, Pois Não” (contemplado com o 1º lugar no I Concurso Escrita de Literatura e publicado como encarte no número 17 da revista Escrita em 1971), “A Capital do Automóvel (na voz dos operários)”, 1979 e Lula e a Greve dos Peões, 1982, livros que traduzem esse cenário de inquietações.
A sociedade dá mostras e vontade de reorganizar-se e nascem novas perspectivas culturais. A par das reivindicações por melhorias sociais, o Sindicato dos Metalúrgicos, através do seu Departamento Cultural, também assumia um compromisso com a cultura e a arte, não só como meios de lazer dos operários, mas também como instrumento de conscientização política, através de ofertas artísticas de qualidade. O Grupo Forja, criado em 1979 e dirigido por Tin Urbinatti, encena textos sobre o universo operário, através de criações coletivas dos próprios operários. São promovidos festivais de música e ciclos de cinema. A política e a cultura se entrecruzam e operam mudanças profundas na sociedade. Sem amparo institucional, artistas criam um clima de verdadeira efervescência, formam-se coletivos de debates, levantam-se contra a censura em concursos literários, abrindo um processo de discussões que não teria volta até o completo restabelecimento da democracia no país.
Foi pela mobilização popular e pela cultura que o Brasil deu a resposta. Na região paulista do ABC não foi diferente, ou melhor, foi muito mais.
É preciso sublinhar o importante papel das mulheres em todo esse período. Mulheres que pegaram em armas, que foram à luta em pé de igualdade com os homens, mulheres que lutaram por creches e outros direitos, mulheres que, juntas, e em seus múltiplos e estratégicos papéis, sustentaram de forma decisiva a manutenção das greves, tanto na resistência quanto na retaguarda das lutas.  Mulheres que a história tentou silenciar, mas não conseguiu e que estão recontando sua história nos últimos anos, através de pesquisas, depoimentos, livros, Congressos, Encontros e Seminários, como o que ocorreu recentemente no ABC sob o tema “A justa rebeldia das mulheres na América Latina e Caribe”, reunindo mulheres que participaram de guerrilhas, não calaram e vieram contar a sua própria história.  Dentre outras muitas iniciativas de resgaste da história das mulheres, também o grupo de teatro Ponto de Fiandeiras, vem pesquisando e encenando como resultado de suas pesquisas, a história da mulher operária e da mulher que resistiu aos anos de repressão política. Seu mais recente trabalho é a peça "Ponto Corrente" que retrata o papel e a militância feminina contra a ditadura.
Diante das odiosas e inaceitáveis manifestações machistas e misóginas destes tempos, novamente tristes e sombrios, escolhi alguns poemas de mulheres para esta ocasião e começo com Léa Aparecida de Oliveira. Trata-se de um nome desconhecido nos meios literários, mas que muito significa neste contexto que acabo de narrar. Léa, operária de chão de fábrica, militante sindical e política, eleita, vereadora na cidade de Mauá, lá no meu subúrbio do ABC. Morreu precocemente num acidente automobilístico e publicou 3 livros de poemas. O longo poema OS MISERÁVEIS é de seu livro O Sol & Eles, Massao Ohno, 1981, livro que é dedicado “À memória dos milhares de companheiros que perderam suas vidas na anonimacidade entre o barulho estridente das máquinas e o ferro em brasa...”. Alguns excertos: 

OS MISERÁVEIS
(...)
No ABC eu caminhava aprendendo
o A do Bê e o Bêabá, o que será, o que será?
- Tic-tac-tic-tac-tic-tac...
(...)
Logo viria a queda do Skylab, poderia
ser o fim, ninguém sabia onde ele ia cair.
Torcia para que caísse lá em Brasília na
cabeça do Figueiredo. Já os companheiros da
fábrica pediam que caísse na cabeça dos chefetes,
réplicas menores da repressão
- Tic-tac-tic-tac-tic-tac...
A polícia toda estava alerta para qualquer
movimentação, um passo nosso, nós da ralé,
evaporaríamos, sumiríamos
Já teria dito Essenine poeta da época de Maiakóvsky:
“Nesta vida morrer não é nada de novo,
mas viver também não é muito mais novo”.
- Tic-ta-tic-tac-tica-tac-tic-tac...
(...)
As greves tinham passado em abril de setenta e
nove e ninguém tinha como eu a maior certeza que
poderíamos virar a mesa. Era questão
de sobrevivência.
Conquistaríamos a vida ou morreríamos de vez.
Mas tantos optaram pela morte lenta e gradual
do dia a dia, o baixo salário, a instabilidade,
as horas extras, a produção de milhares,
milhões, bilhões, trilhões de peças, máquinas
carros, com o lema Maior quantidade menor
qualidade, as péssimas condições de trabalho
e ainda achando que ver os “gigantes” da Globo é
lazer.
- Tic-ta-tica-tac-tic-tac...
Foi quando o meu eterno amor sumiu do mapa,
assim como um clic, e... pronto! Sobreviveria
mais por preservação do que vontade de viver.
Depois tinha meu amor pela classe, muito mais
forte, e era estranho amar assim quando a
indiferença nos apunhala pelas costas. À merda
tudo e todos!
- Tic-tac-tic-tac...
 (...) não sou dessas mulheres que
só dizem sim. Só digo não!
(...) e todas as vezes
que passei correndo na frente do trem e sentia meus
pés pesados fincados no chão era por instinto
que corria. Mas e os amigos? Uns lá, outros
cá. Uns mais prá lá do que pra cá?
- Tic-tac-tic-tac...
(...)
O momento ia chegando. Tudo estava tenso
Por mais que me apressasse e corresse. Por
mais que tentasse quebrar as minhas correntes
e as dos outros, chegava o momento assim
como um torturador profissional que manja da
arte do pavor, do medo, chegava.
-  Não, não, não me entregaria assim de mão
beijada. Nada disso. Iria resistir até o fim.
(...)
Naquele dia assassinaram em São Paulo o Santo.
Deram-lhe um balaço que me estonteou e o levou
à morte. Eu queria berrar a minha dor, meu peito
dilacerado com os companheiros também mortos
em Minas, era muito, não poderia aguentar tanto
e o momento aproximando-se...
Quem sabe se botasse fogo na fábrica, ou desse
uns bofetes na cara daqueles puxa-sacos de merda.
Era isso! E ia gritar, berrar, sapatear, sei lá...
Fiz um longo poema e o declamei no meio da seção
subvertendo aquele silêncio fúnebre e mal tinha
acabado de dizê-lo já me haviam dedado.
(...)Não me entregaria. Não iria pedir água. Não e não! Jamais
iria me aliar aos miseráveis. (...)
- Tic-ta-tic-tac-tic-tac...
Corri desesperadamente quando a política tomava
toda a cidade, as ruas, à paisana, a cavalo,
em motos, viaturas, camburões. Eu não me
entregaria. Assim não! Corria e lembrava do Santo;
o Metalúrgico.  (...)
Corri e o tic-tac-tic-tac... agora mais
forte. Maldito relógio me denunciando com suas
pancadas incontidas e os prédios me sufocando.
(...) Tenho que resistir até o fim.
(...) Há repressão! Os policiais. Há censura!
Há auto-censura! Eu não era mais eu. (...)
A dor, há dor, ... (...)
Impossível deixar de chorar. (... )
Era necessário que resistisse.
Podia dar um tiro na cabeça e estourar os miolos.
Mas ninguém me compreenderia. Era tarde demais.
(...) Mas não havia mais tempo pra lamentos
nem porquês. Chegou a hora. (não teria misericórdia.
Consumado o fato. As ruas tomadas de
policiais. Meia-noite. Zero-hora.
Do relógio da igreja matriz um bléim
encheu o mundo.
QUATORZE DE NOVEMBRO DE MIL
NOVECENTOS E SETENTA E NOVE. Amanheceu!
Além me disse:
- FELIZ ANIVERSÁRIO!

Mauá 14.11.79

Poesia sem Quartel - Casa das Rosas - (continuação)

Poesia sem Quartel – Sarau Casa das Rosas 13.8.2016 - 2 (continuação)





ESPERA 
     Aos Metalúrgicos do ABC – 1980

O ódio
     é tamanha a repressão!
O nojo
     são tantas as armas!
A raiva
     diante da impotência!
O grito
     estrangulado nas
     gargantas secas e caladas
     nos músculos tensos
     nos punhos cerrados
     nos corpos sofridos
O cansaço (o medo)
      A vertigem!
Mas uma força, uma grande força
Sustenta estes corpos, fortifica-os:
As máquinas estão lá, paradas,
Dependendo desses braços

Os homens, não mais máquinas
Esperam
Quase trapos, mas homens!
Esperam
Dalila Teles Veras in Lições de Tempo, 1982 (poeminha um tanto quanto panfletário, rejeitado pela autora, mas que na ausência de algo melhor para este dia, serve como memória de nossa história recente)

CAÇADA
            
O dia e sua cilada
surgiram de surpresa.

No instante iníquo
não consegui rastear
a fuga. Sabia-te indefeso
à mira, ao tiro
Despedaçara-te.
Em cega fúria de fera
empunho meu escudo
de veneno e ódios.
Antecipo-me

Retomo-te em meus dentes
e prossigo.

TEMPO DE DESERTO

Quem resiste a esse
tempo de deserto?

Que olhos vêem esse
horizonte cinza?

Quem nos abisma
nessa travessia?

Quem nos legou
escombros e salinas?

Quem permanece vivo
entre esses mortos?


Lara de Lemos (Porto Alegre, 1923, Rio de Janeiro 2010), in  Adaga Lavrada, Civilização Brasileira/Massao Ohno, 1981

BURITI CRISTALINO

             para Lamarca e outros

Ele andou por três dias
na caatinga.
No quarto dia ajoelhou
de fome.
No quinto adormeceu ao pé da baraúna.
No sexto foi encontrado e metrado pelos guardas.

E no sétimo
descansou.

Renata Pallottini  – Cantar meu Povo, Massao Ohno, 1980

D. QUIXOTE EXPLODE
             para Alfredo, meu pai

Todas as noites
minha rua explode
como Hiroshima
e Nagasaki
como a adolescente
que explodiu
o mundo no banheiro.

Como a Lagoa Rodrigo de Freitas,
num cogumelo
de peixes apodrecidos
que sobe ao topo
dos sergios dourados.

Cada estrela
estoura
e some
atrás da fumaça.
A Lua
não tem mais graça
é um astro rouco
e sem parceiro de espaço.

Explode o aço jovem
dos tempos de guerrilha
e a ilha
e a trilha
do mundo
explode minha família
a igreja, as mães e os filhos;
Deus se perde...

Explode meu pai
pelos ares
o último D. Quixote
do século
como um vento magro,
vai vendo
suas histórias
            acontecerem


 Denise Emmer (RJ 1958), in Flor do Milênio, Civilização Brasileira, 1981
(*) Alfredo Dias Gomes, dramaturgo


Um estado muito interessante

Conheço o meu país
no escuro – pelo tato.
E se me amarram as mãos nas costas
conheço pelo cheiro.
E se me tapam o nariz
ainda assim conheço o meu país
pelo que dele sobra
às minha volta.

Não conheço o meu país pela boca.
Não conheço o meu país pelos ouvidos.
Não conheço o meu país pelos olhos.

O que a boca solta o ouvido não encontra,
o papel não grava, o olho não recorta.

Conheço o meu país
mas não o conheço de dentro
Também não o conheço de fora.
Conheço-o de lado
Quer dizer que o conheço
sem relevo

Muito curioso esse país rasante
como um vôo rasteiro.

Meu país bicho-de-concha
para dentro de sua casca
sem contorno.

Mito curioso esse país no escuro
sem local exato de pouco para os dedos.

Muito curioso esse país de cheiros
sem apoio.

Muito curioso
e muito interessante.

O termo é este.

Um país interessante
é como uma mulher em estado interessante?

Uma mulher em estado interessante
sempre acaba
                       em trabalho de parto?

invevitavelmente? não há outra saída
além daquela prevista na barriga?

Um país muito barrigudo
é uma mulher inchada –
de basófia ou filhos?

A comparação nã ocabe, entre pessoas
estados, de corpo, alma e federativos?

Ou cabe até demais?

É isto mesmo.
Tudo cabe em um país.

Ou não?

Como tirar a dúvida? Por exclusão
do que primeiro?

estados? almas? pessoas?
o que ficar? sobra? federação? filhos?

o que faço
se não controlo as respostas
pela boca; assobio? (....)

No escuro meu país é simples.
Dois sentidos bastam.
                                 E sobram.

Se nenhum sentido
meu país teria
                       a mais perfeita ordem.

Zulmira Ribeiro Tavares, in 26 poetas Hoje, org. Heloisa Buarque de Hollanda, 1976, paulista, 1930