quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Apresentação do livro “solidões da memória” no Funchal


As trocas com a sempre gentil e disposta poeta, produtora artística e militante cultural Maria Fernandes existiam já há um bom tempo. Como responsável pela revista virtual A.Poética, propôs e, claro, pronta e vivamente aceitei, uma apresentação do meu livro solidões da memória na minha cidade natal, o Funchal, onde vivi até os 11 anos de idade.

O livro, que tem por tema a memória de minha infância, não poderia encontrar lugar mais propício para sua apresentação. A memória que retorna, em suporte de papel e poesia, ao local de sua gênese.
Foi assim que o evento aconteceu, no âmbito do belo e meritório projeto A.Poética, no dia 12 de novembro de 2016, na galeria Porta33, um lugar simplesmente espetacular.


Maria Fernandes, em nome da A.Poética

Maria cuidou de tudo, desde a busca do local para a apresentação e, nisso, foi muito feliz, dado que a Porta33, espaço ímpar, há 25 anos  é lugar de arte e de encontros, graças à paixão com que o casal Cecília Vieira de Freitas e Maurício P. Reis o conduz e que prontamente aceitou, sem quaisquer ônus, ceder suas instalações para o evento.


Maurício Reis, o anfitrião, abrindo o evento

Cecília Vieira de Freitas, a anfitriã, e a celebração com Madeira

Maria também cuidou do convite a três mulheres sensacionais que muito me honraram em apresentar o livro, cada uma à sua maneira e todas em altíssimo grau de competência intelectual e literária :   ; Irene Lucília Andrade, professora, compositora e escritora, autora de vastíssima e reconhecida obra literária). 


Ana Salgueiro, docente e pesquisadora na Universidade da Madeira

O mergulho crítico no "rizoma", a análise literária e honrosa da Dra. Ana 
Irene Lucília Andrade: Apontamentos poéticos de poeta para poeta


Teresa Jardim, poeta, professora e artista plástica: atentas anotações "plásticas/poéticas" 


e após os três surpreendentes estudos de sua obra, só restou à poeta poucas palavras (o essencial havia sido dito) e a leitura de um poema






Tudo isso, mais o comparecimento de um expressivo e, para mim, inesperado público, transformou aquela apresentação, em tarde ensolarada de Outono quase inverno, num memorável encontro.

E vieram os autógrafos



  





E as conversas e as trocas

e os afagos

e os abraços que foram muitos mas nem todos registrados

e a eternização da antiga e nova amizade, ambas tão importantes
E faltou registrar, graças também ao trabalho de divulgação da valorosa Maria Fernandes), a excelente repercussão na mídia local (jornais impressos, rádio e TV).

entrevista à RTP

Bem hajam todos!
O registro destas imagens devo à Luzia Maninha, a quem muito agradeço por isto e, ela sabe, muito mais. (dtv)






Breve depoimento, em forma de homenagem à Sra. Maria Letícia


            Apresentação do livro “solidões da memória” no Funchal
As trocas com a sempre gentil e disposta poeta, produtora artística e militante cultural Maria Fernandes existiam já há um bom tempo. Como responsável pela revista virtual A.Poética, propôs e, claro, vivamente aceitei, uma apresentação do meu livro solidões da memória na minha cidade natal, o Funchal, onde vivi até os 11 anos de idade.
O livro, que tem por tema a memória de minha infância, não poderia encontrar lugar mais propício para sua apresentação. A memória que retorna, em suporte de papel e poesia, ao local de sua gênese.
Foi assim que o evento aconteceu, no âmbito do belo e meritório projeto A.Poética, no dia 12 de novembro de 2016, na galeria Porta33, um lugar simplesmente espetacular.

Maria cuidou de tudo, desde a busca do local e, nisso, foi muito feliz, dado que A Porta33, espaço ímpar que há 25 anos  é lugar de arte e de encontros, graças à paixão com que o casal Cecília Vieira de Freitas e Maurício P. Reis o conduz e que prontamente aceitou, sem quaisquer ônus, ceder suas instalações para o evento.
Maria também cuidou do convite a três mulheres sensacionais que muito me honraram em apresentar o livro, cada uma à sua maneira e todas em altíssimo grau de competência intelectual e literária (Ana Salgueiro, docente e pesquisadora na Universidade da Madeira; Teresa Jardim, poeta, professora e artista plástica; Irene Lucília Andrade, professora, compositora e escritora, autora de vastíssima e reconhecida obra literária). Tudo isso, mais o comparecimento de um expressivo e, para mim, inesperado público, transformou aquela apresentação, em tarde ensolarada de Outono quase inverno, num memorável encontro.  
A título de registro e ilustração, deixo aqui algumas imagens daquele momento, de autoria de uma entusiasmada testemunha, Luzia Maninha, a cunhada/parceira. (dtv)



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Emigração, Memória e as Tarefas da Poesia - Dalila Teles Veras, no CEHA

Em novembro último, estive no Funchal, minha cidade natal, na Ilha da Madeira. Desta feita, foi uma temporada literária, sem deixar, entretanto, de ser igualmente afetiva, da qual voltarei a dar notícias.

A convite do CEHA - Centro de Estudos de História do Atlântico, participei do Colóquio  Mobilidades Madeirenses - em 2016 dedicado ao Brasil, sob tema "As Mobilidades no Espaço e no Tempo". Com muito atraso, é verdade, deixo aqui a versão condensada do meu depoimento (a que li durante o Colóquio). A versão integral, que constará dos anais do Encontro, poderá ser lida no meu site www.dalila.telesveras.nom.br

imagem: luzia maninha


EMIGRAÇÃO, MEMÓRIA E AS TAREFAS DA POESIA 

Antes de tudo, minha palavra de agradecimento ao dr. Alberto Vieira pelo honroso convite que fez com que esta poeta atravessasse o Atlântico para pisar e celebrar, uma vez mais, sua terra natal. Um honra e uma alegria estar aqui.

Sou filha de um lavrador, neta de um tanoeiro, bisneta de um ferreiro, ofícios nobres imortalizados na toponímia do Funchal.

nomear é jamais apagar
      
na toponímia do funchal
a história
(da cidade, dos meus, a minha)
na pedra grafada 

branco sobre negro
as placas contam
(vozes de cinco séculos)
o que ali se passou
os que ali habitaram
o que por ali se fez

na rua dos tanoeiros
leio homenagem oculta
ao anônimo artífice de barris
meu avô
que ali trabalhou e, morto
não foi apagado, vive
à vista dos passantes
branco sobre negro
a lembrar

Minha mãe, a mãe e a avó de minha mãe eram costureiras, mas todas sabiam igualmente bordar, habilidades inerentes às mulheres madeirenses. 

BORDADEIRA

É de risco esse teu ofício
urdindo pontos e riso
a conversa andando à roda
e os planos traçados no bastido.

Florista do tecido
enfias sonhos na agulha
traças linhas no destino
fatal e premeditado fiar.

A vida? Será ela em ponto cheio? / ou pespontada de sombras e granitos?
Meu ofício é a palavra. Gosto que me chamem de poeta e os poemas que acabo de ler são de minha autoria. De minhas memórias também faço poesia e crônica e diário e... Tudo é palavra. Este poema fala disso:

rizoma
    
a infância e a memória 
da infância, submersa
na líquida travessia

vez por outra
o atlântico deposita
ossos datados
nas terras do exílio

(a menina antiga
recebe os sinais
códigos esquecidos
legendas para o lembrar
- revivências)

a memória da infância
é a memória possível
(e só à poesia cabe recriar).

O pai de meu pai, o avô de meu pai, o bisavô de meu pai eram homens do campo. Arco da Calheta é seu lugar. Ali pegaram de galho e ali permaneceram.

SAGA

Ao pé dos semi-circulares montes
logo abaixo da Lombada
onde António por Isabel enlouqueceu
nasceu meu pai
o pai de meu pai
o pai do pai do meu pai.
Cavaram a terra, regaram-na
estacaram a vinha e os cachos de banana
colheram filhos e respeito
- a palavra por um fio de bigode.
Não bastou ao filho do meu avô
a placidez das regas
o banhar-se em oceânicas águas
o mergulho à busca de lapas e caramujos
atravessou-as – eterna busca
apelo nômade de árabe
ilhoa inquietação.
A América o engoliu
em seus múltiplos caminhos
devoradores de sonhos.
E a filha do filho do meu avô
tenta reconstituir a saga
e o sonho do regresso.

Após esta introdução, como se viu, com licenças poéticas, tentarei cumprir a orientação do honroso convite, ou seja, contar sobre a História da emigração de minha família e da minha afirmação no Brasil, país onde resido desde 1957. Uma autobiografia e, desde já, peço-lhes a devida paciência e compreensão. Este testemunho, sublinho, não obedecerá a nenhum rigor cronológico. Antes, Seguirá o fluxo das lembranças que ora recuam, ora avançam no tempo que, diga-se, jamais é linear.

Os poemas são pausa poética/ilustrativa, já que minhas memórias, transfiguradas e recriadas, foram objeto de partida para muitos poemas, em especial nos livros “Madeira: do vinho à saudade”; “estranhas formas de vida” e, o mais recente, “solidões da memória”, uma espécie de “trilogia das raízes”. Também porque a poesia é a forma em que melhor me expresso.

Pois bem... Dalila Isabel Agrela foi o nome que me deram ao nascer, aqui mesmo, no Funchal, em Santa Maria Maior, onde vivi até os 11 anos, quando embarquei com meus pais e irmãos para o Brasil. Agrela vem do Arco da Calheta, onde nasceu meu pai. Faltou o Olival materno que o machismo da época, inconsciente, acredito, assim como também perdoo, não permitiu incorporar. Vem lá da Freguesia de Santa Cruz onde nasceu o meu avô, pai de minha mãe. A estes, por amor, incluí o Teles Veras brasileiro, que também possui origem remota lusitana e que uso como sobrenome literário.

Meu pai, Manuel de Jesus Agrela, filho de pequenos proprietários rurais, nasceu no Arco da Calheta onde residiu e trabalhou no campo com seus pais até os 21 anos de idade, quando de lá saiu para servir o Exército, em 1941. Após o cumprimento do período obrigatório do serviço militar, cumprido em boa parte nos Açores, durante a II Guerra Mundial, retornou à Madeira em 1945. Homem de poucas letras, enfrenta, como é de se imaginar, toda sorte de dificuldades para seu sustento. Não queria voltar para o campo, onde seus pais viviam, pois apaixonara-se por minha mãe, Maria de Lourdes, uma menina nascida e residente no Funchal e era aqui que desejava também residir. Teimoso, decidiu ficar e empregou-se no comércio como empregado de mesa (no já extinto Café Riviera, na Av. Arriaga e no Café Apolo, ainda hoje em funcionamento. Em julho de 1946, nascia eu, sua primeira filha, concebida antes mesmo do casamento, decorrido em abril daquele ano, pecado inconfessável, a ser escondido a sete chaves durante décadas. Quinze meses depois de meu nascimento, ou seja, em setembro de 1947, nascia meu irmão, José Manuel.

A Europa devastada daquele período pós-guerra não oferecia, como sabemos, qualquer perspectiva para os menos favorecidos. A esperança, para alguns, estava no novo mundo. Em fins de 1949, à busca das acenadas oportunidades de trabalho, meu pai decide embarcar para a Venezuela, onde já estavam estabelecidos irmãos, cunhados e primos. Deixou minha mãe grávida do terceiro filho (minha irmã, Maria Floripes) e partiu, com o dinheiro da passagem emprestado por um irmão e a garantia de um teto, ou melhor, um catre nos fundos do estabelecimento comercial onde foi trabalhar.

Lá ficou por quase cinco anos, quando, com algum dinheiro amealhado e já proprietário de um pequeno comércio em Caracas, retorna à Madeira, adquirindo uma casa no Funchal. Volta logo a seguir à Venezuela, novamente sozinho, onde permanece por mais um ano, com a finalidade de juntar mais alguma coisa. Adquire um pequeno comércio no Funchal.

Aparentemente, a vida, finalmente, corria serena, mas nele volta a instalar-se algum tipo de vírus insular que impele o ilhéu para além do líquido horizonte e... A ilusória placidez pouco dura.  Em 1957 meu pai pede a um primo residente em São Paulo, uma “carta de chamada” para emigrar para o Brasil. Vende a casa e todos os pertences e, mesmo sob os protestos de minha mãe, embarca no paquete “Santa Maria” com destino ao Brasil (Santos), levando desta feita, a mulher e os três filhos. Era novembro e nos dezembros do resto de suas vidas, não voltariam a ver o fogo da passagem do ano no Funchal.

Para a criança, tudo, no entanto, era novidade e expectativa do novo, inclusive,  toda aquela azáfama da embalagem dos pertences considerados essenciais, (uma máquina de costura, alguma louça, uma espiriteira a álcool para cozinhar, algumas roupas de cama e mesa, roupas pessoais) e, agora sei, uma história de vida deixada para trás.

Embarcamos e a partir daí, a ruptura e o inevitável apagamento de toda uma história, esta, da qual agora lembro e relato.  

Constituem viva lembrança minhas férias de verão passadas na casa dos meus avós paternos, no Arco da Calheta, onde chegava após a “longa” viagem de “horário” ou de barco, o Gavião, se bem me lembro, a de minha preferência. Minha mãe não se adaptava aos costumes do campo, mas a menina batia o pé que queria e queria e... lá ía eu, sozinha. Minha mãe entregava-me a um passageiro qualquer  que lhe parecesse confiável, pedindo-lhe que fizesse o favor de olhar a menina até a Calheta, onde uma das tias a aguardaria.

Dos cheiros do verão, tenho presente o dos figos, das ameixas, das uvas, dos tabaibos, das anonas, mas nenhum deles supera o do pão a assar no forno da chamada loja, cômodo no rés do chão da casa assobradada, que servia de cozinha e dispensa. As tardes longas ao lado das tias em roda a bordar e bilhardar. Sim, na ausência de grandes acontecimentos, bilhardar em período de trabalho, era a fuga necessária à mesmice dos dias. Além das crianças e do meu avó paterno, já velho, sempre silencioso e que jamais saiu do lugar, não me recordo da presença de outros homens ali. Esse avô, Manuel como meu pai, além de trabalhar em sua própria terra, também trabalhou a vida toda no alambique do Engenho do Arco da Calheta.

Do campo, guardo também os sons das levadas e a rega da fazenda, por vezes na madrugada. A festa do Loreto e a participação, como mascote dançante do Grupo Folclórico da Calheta fazia parte das minhas atividades de férias. Sempre quis e sonhei dançar, mas, adulta, desaprendi. Com exceção da obrigatoriedade da reza coletiva do terço antes de dormir, suprema tortura, ali havia a liberdade que a cidade negava à criança.  

Do Funchal, dentre outras, está bem fixada na janela da minha memória, a escola Visconde Cacongo, no Bom Sucesso. Talvez para amenizar o medo imposto pela obediência e rígida disciplina ou, quem sabe, cometer um imperceptível ato de rebeldia pela poesia, candidatava-me a recitar Augusto Gil nas comemorações cívicas (“Batem leve, levemente, / como quem chama por mim... / Será chuva?  Será gente? / Gente não é certamente / E a chuva não bate assim...”). De nada adiantou a demonstração da veia poética da apaixonada declamadora mirim. Quando menos esperava, a implacável prof. Laurinda de Albuquerque, ergue a palmatória e aplica meia dúzia de bolos em cada uma das frágeis mãos da menina, mágoa jamais superada. O episódio foi recriado neste poema:


Fragmento

A palmatória crescia, crescia...
o pânico dos meus olhos assustados
o ódio por detrás dos óculos
e do rosto afogueada da professora
Dinastia Filipina? Dinastia Filipina?
A palmatória a crescer... a crescer...
eu tinha apenas 10 anos
e tentava compreender
que relação poderia haver
entre invasão espanhola
e aqueles vergões vermelhos
em alto relevo desenhados
nas palmas de minhas mãos.


A austeridade daqueles tempos era quebrada com raros passeios, incluindo aí algumas romarias. Não havia brinquedos, além de uma ou outra boneca de pano feita pela mãe. Inventava-se e tudo servia, como bichinhos feitos com semilhas e palitos, o jogo de pedrinhas. Gostava de fabricar joeiras com meu irmão e soltá-las em dia de vento. A primeira e única boneca, comprou-a meu pai nas Canárias, onde o barco que o trouxe da Venezuela fez escala. Um verdadeiro prodígio, estrondoso sucesso na vizinhança, que também virou poema.



Voltemos para a nova terra, a nova vida, através deste poema:  


chegada
         
onze foram os dias
enjoo,  sarna e tédio
terceira classe
paquete santa maria

da terra prometida
primeiro, o recife
amarelos inaugurais

aos emigrantes, o
delimitado espaço
do porto, aos turistas
a cidade  (entre)vista
do cais

(aos que vinham
para o trabalho
ver o trabalho
era  o limite)

via-se
:
corpos gingantes, a estiva
torsos negros azuis suados

e o cheiro despudorado
do abacaxi a anular o resto

 (o brasil tinha cheiro
e era de ananás)

Ainda que a língua fosse a mesma, o choque cultural foi inevitável. Para além da diferença abissal da paisagem e da cultura, o constrangimento de cinco pessoas diante da nova situação, ou seja, o abrigo provisório num cômodo da casa de um primo. Depois, dois quartos alugados num porão úmido, até que a pequena casa fosse construída.

Decorrido um ano, ainda sem trabalho estável, pois a tal “carta de chamada”, uma espécie de contrato exigido pelo governo brasileiro para entrada legal de emigrantes no país era, naturalmente, regida por algumas regras. Uma delas era a exigência do trabalho “no campo”, detalhe que meu pai, na ansiedade da partida, não havia percebido antes. Assim, a ele não era permitido que se estabelecesse como comerciante na cidade, conforme era seu intento.

Uma vez mais, a recusa em ir para o campo, muito lhe custou. O dinheiro auferido na venda do pequeno patrimônio na Madeira fora gasto com passagens, construção da casa própria, além dos gastos com os chamados “despachantes” que cobravam altas taxas dos emigrantes para legalizar sua situação na cidade. Finalmente, documentos em mãos vazias de dinheiro, meu pai novamente é obrigado a vender a casa, morar de aluguel para, com o valor da venda, adquirir um pequeno comércio onde trabalhou por mais de duas décadas até sua aposentadoria.

Minha mãe, peça chave dessa saga, ainda que permanentemente lamentasse o que considerava uma decisão desastrada de meu pai, ou seja, a emigração para o Brasil, enfrentou, sempre com muita coragem, as mais dramáticas situações. Novamente, a contragosto, deixou o trabalho da costura para ajudar meu pai no que aqui (e lá também), chamava-se de “venda”. Jamais tiveram empregados. Com sua fluência em leitura e rapidez nos cálculos, era ela quem cuidava da contabilidade, da compra de mercadorias, do financiamento bancário e ajudava nas vendas, além de exercer a dupla jornada de trabalho destinada às mulheres, ou seja, cuidar da casa, da alimentação e dos filhos, assim como mandava/manda o patriarcado.

E lá íamos, aclimatando-nos aos trópicos. Alvos de curiosidade, eu e meus irmãos, em poucos meses, falávamos já como brasileiros. O receio de “ser diferente” e o desejo infantil de nos “igualarmos”, inclusive para não sofrer o preconceito que, sim, existia e existe. Menos agora do que antes, é bem verdade. O português era visto como um ser pouco dotado de inteligência e alvo de muitas piadas.

As dificuldades iniciais, à medida que os mais jovens abriam caminho para a família adentrar aos hábitos e costumes da nova terra, foram superadas.

Uma curiosidade: minha mãe gostava de fazer e de recitar trovas populares. Tinha por hábito criar uma trova para cada ocasião festiva. Certa feita, na tentativa de ajudá-la a superar uma depressão, pedi que anotasse aquelas que sabia de cor. Em pouco tempo, havia anotado mais de 150 trovas que organizei e publiquei num livreto, sob o título “trovas populares madeirenses”. Gostava muito de ler e também citava provérbios. Muitos deles, eu, meus irmãos e minhas filhas, recordamos até hoje.

Do lado paterno, 6 dos 8 irmãos, aí incluído meu pai, emigraram para o Brasil. Todos para São Paulo. Minha avó, já viúva e com mais de 80 anos, também foi para o Brasil, juntar-se aos filhos e lá morreu, já perto dos 90 anos. Os descendentes desses tios somam hoje mais de uma centena de pessoas. Todos se conhecem e se relacionam. Como era de hábito no Arco da Calheta, ainda os chamamos por “fulano” de “fulano”, ou seja, o José da Conceição, a Maria do Antonio, etc. Os outros três irmãos ficaram no Arco da Calheta onde, hoje, ainda vive boa parte de seus descendentes.

Minha mãe, na última década de sua vida, enfrentou uma doença cardíaca grave que a levaria à morte aos 77 anos. Meu pai, quatro anos mais velho, a ela sobreviveu, vindo a falecer poucos meses antes de completar 90 anos. Sempre gozou de excelente saúde e disposição. Ambos retornaram à Madeira, por apenas duas vezes, já em idade avançada.

Aos 16 anos, tendo concluído um curso prático de “Secretariado”, outro de datilografia e cursando a língua inglesa, fui trabalhar num pequeno escritório no centro da cidade de São Paulo. Dali, para a Federação das Indústrias de São Paulo e, três anos após, para o escritório de uma indústria metalúrgica na então efervescente cidade de São Bernardo do Campo, região metropolitana de SP. No início dos anos 60, a Indústria Automobilística encontrava-se em acelerado desenvolvimento. Era um tempo de pleno emprego. Quem possuísse bons conhecimentos de língua portuguesa, estenografia, datilografia, e, no caso de empresa estrangeira, conhecimento razoável da língua inglesa, recebia, como foi o meu caso, excelente salário. Tive uma carreira profissional exitosa, chegando a secretária executiva de Diretoria numa empresa multinacional.  

Em abril de 1971, 25 anos incompletos, empreendo uma viagem de retorno à terra natal, sozinha, refazendo, pelo ar, o trajeto que, menina, fizera por mar, 14 anos antes. Durante esse período, a comunicação com os parentes que aqui ficaram, foi mantida de forma intensa. Nessa primeira visita, encontrei vivos, meu avô materno e seus dois filhos, meus tios Alice e João Elmano, que residam no Funchal. No Arco da Calheta, dois tios, João e Gabriela, e seus descendentes, todos, tios e primos, com suas respectivas proles, que sempre me acolheram com afeto e viva simpatia.

Durante aqueles primeiros 14 anos de ausência da pátria primeira, e por muitos outros, até a chegada da comunicação virtual, as cartas, manuscritas, com aqueles adoráveis envelopes adornados com bandeiras coloridas, cruzavam o Atlântico.  Falavam do cotidiano, da saúde, do emprego, da situação financeira, dos que emigraram e retornaram, dos que não mais retornaram, enfim. Guardo uma boa quantidade delas comigo e noto que havia sempre muitas queixas. Pouco se falava de alegrias. Fotos, antes do advento da fotografia digital eram mais raras, mas, vez ou outra, eram trocadas. Assim, de carta a carta, de telefonema a telefonema, de abraço a abraço, fomos mantendo os laços e os afetos.

A minha chegada à Madeira naquele já distante ano de 1971 foi recebida com muita surpresa e curiosidade. Fui uma das primeiras da família a retornar.  Disse-me um primo, aqui há uns poucos anos, que o Arco da Calheta ficou em polvorosa quando pela primeira vez ali chegou uma mulher (eu), a conduzir um automóvel.

Em 1972, aos 26 anos, casei-me com o então recém-formado advogado Valdecirio Teles Veras, que viera do Piauí, seu estado natal, no Nordeste, estudar em SP onde se radicou. Hoje, é cidadão português, por direitos legalmente adquiridos e afinidades eletivas. É meu companheiro eterno de incontáveis viagens e meu incentivador em todos os quesitos da existência. Como é tradição, hoje também aqui presente, ao lado de sua irmã mais nova, Luzia, que tenho na conta de filha e que pela primeira vez visita a Madeira. Temos 3 filhas, Carolina, Isabela e Alice, e quatro netos, Filipe, André, Murilo e Iara. Todas as filhas com formação universitária e carreiras consolidadas.

A ausência de formação superior formal não me impediu a busca por conhecimento que sempre foi o meu objetivo. Não só o conhecimento instrumental, destinado ao trabalho, mas o referente às humanidades, sempre foi e é alvo de minha curiosidade e interesse. Nessa empreitada, tive no hábito da leitura, meu maior aliado. Sou feita, portanto, do que li.  Desde muito cedo descobri minha vocação para as letras. Colaborei em publicações literárias. Assinei coluna em um jornal diário por vários anos. Publiquei meu primeiro livro aos 36 anos. Sou autora de mais de duas dezenas de livros, nos gêneros poesia, ensaio, crônica e diário literário. Dedico-me também há mais de três décadas ao ativismo e à promoção cultural. Por essa minha atuação pública, em 2004, a Câmara Municipal de minha cidade outorgou-me o título de cidadã honorária. Há 4 anos integro, a convite, o Comitê de Extensão Universitária da Universidade Federal do ABC, assim como integrei em outras ocasiões comitês e comissões em outras universidades.

Após 45 anos de residência no Brasil, optei por requerer a chamada dupla cidadania. Vários motivos levaram-me a tomar tal decisão: havia já componentes de “brasilidade” que incluía minha participação ativa e “militante” na vida cultural e política de minha cidade e região. A burocracia oficial fazia questão de me lembrar da condição de estrangeira, ou seja, a renovação periódica do meu documento brasileiro de identidade. As longas e demoradas filas dos guichês reservados aos “estrangeiros” nos aeroportos brasileiros. "Estrangeiro aqui como em toda a parte", habitante de "pátria incerta" lembrava-me o nosso Poeta.  Nem de lá, nem de cá e, neste caso, a língua me servia apenas de teto, faltava-me verdadeiramente uma pátria, na qual pudesse exercer efetivamente minha cidadania.

Após um ano de certidões e burocracias consulares, finalmente obtenho, em 2002, o “certificado de igualdade e de outorga do gozo de direitos políticos”, sem abrir mão da minha naturalidade portuguesa. Ato contínuo, cuidei de tirar o meu “título de eleitor” para, enfim, exercer minha cidadania (quase) plena. Para minha decepção, sou informada de que a obtenção da dupla cidadania não me concedia o direito a um passaporte brasileiro. Portugal concede passaporte português aos brasileiros que a requerem e o Brasil não faz o mesmo em relação aos portugueses. A contrapartida da “dupla cidadania” não é verdadeira. Jamais me conformei com isso. Munida de meu passaporte português, do qual, diga-se, muito me orgulho, passei a me dirigir apenas às filas destinadas a brasileiros nos aeroportos do Brasil e, ainda com alguns problemas, jamais fui barrada. Finalmente, há muito pouco tempo decidiram que os cidadãos com dupla cidadania entrariam no Brasil pela porta da frente.
A propósito desta minha pequena história que é a de tantos, e já encerrando, gostaria de lembrar que vivemos tempos difíceis e violentos, absurdos tempos de intolerâncias e xenofobias planetárias. . Em regime de urgência, precisamos aprender a conviver com alteridades, exercer a fraternidade com os que vieram de longe por contingências as mais diversas e, muitas vezes, dramáticas. Os portugueses, e os madeirenses em particular, por essa incalculável diáspora pelo mundo, mais do que ninguém e mais do que nunca, precisam acolher aqueles que aqui chegam à busca das mesmas oportunidades que os seus antepassados igualmente foram buscar em outros tempos e lugares.

Encerro com este poema, que, sinteticamente, talvez diga mais de mim do que todo este longo e maçante depoimento. O poema faz parte do meu livro “solidões da memória”, recentemente publicado no Brasil, inteiramente composto por poemas que evocam minha infância na Madeira, falam também da ruptura da travessia e do olhar crítico no retorno à ilha. Em síntese, aquilo que aqui evoquei.

 Confidência da madeirense

                      Alguns anos vivi em Itabira.
                      Principalmente nasci em Itabira.
                      Por isso sou triste,
                      orgulhoso: de ferro.
                             Carlos Drummond de Andrade, o maior poeta brasileira do séc.XX,
                                                                                                   bisneto de madeirenses

alguns anos vivi na madeira
principalmente nasci na madeira
por isso sou melancólica, teimosa: urze
de nascença, em luta frente às intempéries
(do solo, do vento e das vagas marítimas)
alma em permanente desassossegar

da madeira nada de material veio comigo
e não há nada que eu possa ofertar
mas da madeira vem este ar atrevido
a língua maldicente e áspera
e o hábito de tudo reclamar
atavismos que a consciência, por vezes
                                 rejeita

a madeira não é apenas fotografias
é a memória real dos precipícios
                            e das vertigens
encordoamento 
        do que não parecia lembrado
                             mas é
a memória do que não foi
                       mas poderia
                       e sequer dói

Obrigada

Funchal 10.11.2016
dalila teles veras

    


domingo, 29 de janeiro de 2017

Grafite - Imagem tatuada na paisagem urbana

A propósito do ato arbitrário, voluntarioso e descabido do recém-empossado prefeito de São Paulo, ou seja, o apagamento de um mural grafitado na av. 23 de Maio, o maior mural desse tipo na América Latina,  reproduzo aqui um texto que escrevi já há algum tempo para o blog do grafiteiro Vado do Cachimbo e que poderá eventualmente contribuir como reflexão diante da polêmica que esse gesto de desprezo não só pelos artistas, mas, sobretudo, pela história da cidade provocou.

muro externo da Livraria Alpharrabio (Santo André, SP) grafitado por Vado do Cachimbo, em 2012.

IMAGEM TATUADA NA PAISAGEM URBANA E NO ESPAÇO VIRTUAL
                                    Dalila Teles Veras

            “Imagem tatuada” foi um feliz termo cunhado por Baudrillard para definir o fenômeno da arte do grafite, já agora objeto de estudos acadêmicos e vasta documentação mundo afora.

            O fato é que a arte de pintar muros com arte, “Arte conceitual involuntária” ou “arte” mínima” (1) e tantos outros rótulos que viria a receber, surgiu justamente para desmontar alguns conceitos, inclusive, o de ampliar o próprio conceito de suporte (seria um não-conceito?) da cidade como moldura , uma não-arte ou, ainda, a arte de volta às suas próprias origens (das raízes nas paredes das cavernas e junto à comunidade).

            Tirando-se a história antiga do grafite, que se confunde com muralismo, cujos registros conhecidos vêm lá da Grécia antiga e de Pompéia, o começo daquilo que poderia ser classificado como movimento de grafite no Século XX, teve suas raízes plantadas no grafite-mensagem, ou caligrafite, a idéia sem preocupação com a forma, ou seja, a mensagem filosófica, nos muros da Sorbonne (“Seja realista: exija o impossível”, por exemplo) em 1968. A sua repercussão, está claro, foi planetária. Migrou, poucos anos depois, para o metrô de N.Y., também resultando das grandes tensões sociais e étnicas, mas assimilando as cores locais e assumindo outras características.  (“Os grafites são uma expressão de um gueto que está próximo da catástrofe posto que a civilização é mantida presentemente hostil ao gueto”, segundo Norman Mailer) (2).

             No Brasil, não foi diferente. Ainda em 1968, timidamente (não podemos nos esquecer que eram esses anos de chumbo em nosso país) os estudantes usam os muros da Rua Maria Antônia e da zona urbana da cidade, como meio para mensagens de cunho político, quase cifradas. O caligrafite viria mesmo eclodir por aqui bem mais tarde, lá pelo final dos anos 70,  não só com palavras de ordem política contra a ditadura, mas também com recados amorosos, provérbios bem humorados, compondo um verdadeiro balaio mural.

            Como sempre, a imensa capacidade do brasileiro em amalgamar culturas: o muro como suporte e objeto de protesto, assimilando a forma-mensagem francesa e a forma-plástica americana. Walter Silveira, o pioneiro, viu o seu emblemático ideograma verbal HENDRIX/MANDRAKE/MANDRIX, em 1978 (3) causar interesse de vários periódicos que o publicaram e, logo depois, uma legião de seguidores a fazer uso do muro para a sua manifestação poética (em geral, amorosa).

            Nessa fase jurássica brasileira, a prática não distinguia grafite de pichação, esta última sempre vista com uma carga negativa e pejorativa de “vandalismo”, “emporcalhamento” e de “poluição visual”. Há estudiosos, entretanto, que não fazem distinção entre ambos e fazem questão de usar o termo “grafito” ao se referirem a essas manifestações nos muros, sejam elas com letras, palavras, ou desenhos. Vale, aqui, o suporte, independentemente do conteúdo da mensagem.

            Prevalece, no entanto, na sua imensa maioria, o termo pichação para expressões de pessoas sem formação artística e que se valem dessa maneira de protesto para, simplesmente, deixar o seu próprio nome, ou de seu grupo registrado, com o único propósito de demarcar território ou até por simples ânsias de identidade.
Da pichação ao chamado grafite universitário, praticado no começo dos anos 80 por estudantes de artes ou arquitetura, cujo pioneirismo em São Paulo é creditado a Alex Vallauri, dá-se um salto não só estético como também de conteúdo social. Faz escola, ganha admiradores e rivais.
           
            É nesse efervescente contexto que, vindo do Grande ABC, chega à Capital, Edvaldo Luiz Alvares, ou simplesmente o Vado, ou ainda Vado do Cachimbo, como é conhecido artisticamente, com ânsias de colorir o mundo.

            Diversamente da maioria dos grafiteiros mais notáveis da época que, em atitude de dessacralização da arte, saíam das galerias para as ruas, Vado constrói um caminho inverso, partindo das ruas e de uma arte solitária e primitiva para as galerias. Antes, quando conhece Maurício Villaça e passa a integrar o grupo Art Brut, Vado já ia além dos desenhos ready-made, praticados pelos grupos paulistas nos muros da cidade e criava seus próprios personagens. A partir de Catiana, surgida desde o início de sua carreira, quando era tido pela crítica como primitivista e ganhava prêmios nessa categoria, ele vinha trabalhando com bonecos-personagens.

            Esse trabalho personalíssimo chama a atenção de Alex Vallauri que o convida a colaborar com seu grupo. É quando Vado passa a utilizar-se de máscaras, ferramentas próprias do grafite, bem como a sofisticar e aprimorar esteticamente essa galeria de personagens que ele veio a denominar de “família dos ACs”, desenhos que ele continuou apurando até que esse trabalho ficasse definido como um estilo que passou a ser a sua marca. “Um conjunto de fantoches aparentados pela fisionomia e pela silhueta: todos sorridentes, todos delineados por um cerne preto que apresenta a particularidade de ser “espinhoso” (...) Todos os ACs têm uma flor na mão, mensagem otimista de amor e fé na vida. (...) uma linguagem muito pessoal que transcende os meios de expressão: situando-se entre a caricatura e o grafite.

            Vado inventa um mundo coerente onde a ternura disputa com a crueldade, envolvente tanto pelas qualidades plásticas e cromáticas quanto pelas conotações evocadas pelos estranhos homenzinhos” como bem o definiu a crítica de arte e pesquisadora Josette Balsa, num texto para um catálogo de exposição, em 1985. É de se notar que as cores desses trabalhos de Vado são de uma alegria contagiante, imagens carregadas de símbolos, muitos símbolos, pura alegoria e invenção.

            Em 1987, a convite de Vallauri, Vado participa da Bienal Nacional de São Paulo “A Trama do Gosto” e da primeira grafitagem à luz do dia, no buraco da Av. Paulista, além da execução do cenário da peça de teatro “A Rainha do Frango Assado”, criada por Vallauri. Isso o insere no contexto de um grupo de vanguarda de São Paulo que chama a atenção da mídia e chega a ser capa da revista Veja e objeto de grandes matérias em outros veículos de grande circulação.  Essa arte que tem como moldura a própria cidade, a arte noturna e marginal, não só é aceita, como também é elevada ao status das grandes mostras.  
            A arte de pintar muros com arte desmantelou alguns conceitos, inclusive, ampliar o próprio conceito de suporte (seria um não-conceito?), da cidade como moldura, uma não-arte ou, ainda, a arte de volta às suas próprias origens (das raízes nas paredes das cavernas e junto à comunidade).

            A idéia de um projeto para contar a trajetória da obra de Vado através de seus próprios desenhos e da poesia de poetas convidados não é nova, mas só veio a ganhar forma recentemente.

            Em 1992, convidei o Vado para fazer a capa do número 6 da revista Livrespaço, da qual eu era uma das editoras, e ele manifestou o desejo de vir a compartilhar um livro de seus grafites com poetas, um diálogo entre seus desenhos e os poemas. Achei a idéia fascinante mas o projeto não vingou e nos distanciamos. Alguns anos depois, torno a reencontrar o Vado e lá volta a idéia do projeto para, finalmente em 2001, durante uma gravação para o programa Mural do Artista, comandado por Vado para o Canal 3, TV comunitária da Canbras, surgiu novamente a pergunta: e o nosso projeto do grafite & poesia? Achei que estava mais do que na hora de colocá-lo em prática.

            Na verdade, a proposta era que o próprio Vado escrevesse a sua trajetória artística, uma espécie de Itinerário de Pasárgada, como fez o poeta Manoel, e que os poetas e as fotos de seus trabalhos ocupassem as outras páginas do livro. Porém, ele confessou-me que não levava jeito para isso, que detestava escrever, tinha preguiça. O que ele queria mesmo era uma intervenção poética nos seus trabalhos de grafite e que, ao lado das fotos, isso constituísse a sua história artística.  Foi então que surgiu a idéia da entrevista, ou seja, o artista “oralizado” por ele mesmo.

            O entusiasmo desta vez não deixou que o projeto voltasse para a gaveta. Dias depois, lá estava eu mergulhada no imenso arquivo do artista, com as incontáveis reportagens publicadas em jornais e revistas de grande circulação sobre as suas atividades artísticas, além de fotos, convites e catálogos, material que fui anotando e que me serviu de roteiro para as perguntas que, dia seguinte, gravador em punho, passei a formular ao artista.
Foram seis horas de gravação e muitas outras de conversa, anotações, correções. À medida que a entrevista ia sendo transcrita, era conferida em conjunto com o autor para, novamente, acrescer novas perguntas.

            Todo esse trabalho foi elaborado de forma bastante prazerosa. As descobertas foram surgindo, as leituras paralelas para entender esse fenômeno tipicamente urbano do grafite, arte que foi dos muros para as galerias e bienais e, mais do que tudo, compreender esse artista singular, primitivo quase, com uma incrível e visceral capacidade criativa, verdadeiro motor movido a tintas, spray e cores.

            Projeto em caminho, passamos à fase dos convites aos poetas. Foram enviadas cerca de 6 fotos de trabalhos de Vado a cada um dos 11 poetas por mim convidados, desafiando-os a criar poemas que interferissem e dialogassem com aqueles trabalhos. Não houve determinação prévia de número de poemas. Assim, poetas como Milton Andrade, comparecem com apenas um poema e outros, mais pródigos, criaram vários. A única exceção ficou com Renato Brancatelli que, também praticante da arte do spray, chegou a cruzar caminhos com Vado, tirou lá do fundo do baú, dois poemas feitos no calor da hora dos anos 80. Nada mais adequado. Aliás, Renato Brancatelli foi o último a ser convidado (culpa minha que não havia lembrado da sua faceta de poeta) mas não deixou por menos, colocou à minha disposição seu arquivo bibliográfico sobre grafite, inclusive um trabalho acadêmico de sua autoria, apresentado em 1980, quando cursava o curso de Belas Artes e no qual ele afirma entender o grafite como uma continuidade da pintura mural, sobre a qual faz uma grande digressão e muito me ajudou a compreender alguns aspectos da trajetória dessa arte ainda hoje considerada marginal.

            O livro está pronto à espera de alguma editora ou de um mecenas que possa bancar sua edição. Além da entrevista com Vado, 12 vozes poéticas (a minha incluída) a intervir, penetrar no risco e correr o risco, poetizar com a palavra as imagens que já nasceram poéticas.

            Mais rápido que a impressão em papel, o meio virtual traz, antes, a obra de Vado a um público maior e mais atento do que aquele, apressado, que outrora apreciou seus grafites nos muros da cidade, imagens tatuadas no corpo da cidade e que, agora, ocupam paredes virtuais, de infinitos caminhos e possibilidades.

            Nada mais justo do que essas homenagens ao artista Edvaldo Luís Alvares, o Vado do Cachimbo,  o poeta da cor e da cidade.

Notas:
(1)   Hermann Waldenburg citado por Célia Maria Antonacci Ramos in Grafite Pichação & Cia. (Anna Blume, 1994, SP)
(2)   Norman Mailer “la religion des graffiti”, in “graffiti de New-York”, edição francesa Editions du Chêne, Paris, 1975
(3)   Conforme declaração do próprio poeta a Cristina Fonseca, publicado no seu livro A Poesia do Acaso (na transversal da cidade), T. A. Queiroz Editor, SP, 1981


GRAFITOS POÉTICOS

                            dalila teles veras



CINZENTACIDADE
INCORPORA ARCO-IRIS


SEM EFEITOS PROGRAMADOS
A COR IMPREVÍSIVEL


CIDADETELA
OBRA EM ABERTO


SOMBRAS NOTURNAS
ABRACADABRA
MATINAL TRANSFORMAÇÃO


NO RISCO DO RISCO
RASTRO DE CORES


NA FUGA DO FOGO
O TOM SOBRE TOM


SUSTO ATRÁS DE SUSTO
MÁSCARA MASCARA MÁSCARA
URBANOS RETRATOS EFÊMEROS


MADRUGADA:
ABERTA A CORTINA
O Ó DA CIDADE EM ESPANTO
O PALCO NO MURO 





sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Uma lapinha madeirense... com poesia

Uma "lapinha de poesia"... Tem coisa mais bonita para pendurar um poema? Pois é... Nelson Veríssimo, escritor meu conterrâneo, empenhou-se na pesquisa e armou uma linda "lapinha" virtual, ornada com poemas de poetas nascidos no arquipélago da Madeira. Está lá este meu poeminha, inédito, em companhia de gente grande:

NATAL/NATAIS
a festa era esperar a festa
e os seus ritos
e os seus cantos
e as suas iguarias
epifania sacro/profana
interregno/valimento
a roupa de ver a deus
ansiada/estreada/desfilada
troféu e recompensa
pelo trabalho e vicissitudes
na lapinha tropical
alargada pelos anos
o menino, de bordado
vestido, em pé
evoca e convive
meninos outros
feições diversas
a lembrar, a lembrar
simbolismo e alteridades
sincretismos incorporados
o menino, único/múltiplo
a madeira, ilha
permanecem
repertório atávico/estético


Fica o convite para visitarem a "lapinha", recomendadíssima:

Passos na Calçada - escritores madeirenses

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Visita à Pinacoteca, em À Janela dos Dias – poesia quase toda

Livros envelhecem? Claro que não! Tenho provas disso diariamente o que não é nenhuma novidade para uma alfarrabista e, sobretudo, para uma leitora que encontra surpresas novas em velhos volumes.
Recebi, com grata surpresa, estes comentários críticos sobre o meu já “velhinho” À janela dos dias: poesia quase toda (Alpharrabio Edições, 2002) da amiga Márcia Plana, Mestre em Literatura e Crítica Literária (PUC-SP) que muito tem contribuído com os encontros do Sábados PerVersos, na livraria Alpharrabio, desde 2014. Márcia só agora leu o livrinho de 2002, ou seja, 14 anos após sua publicação e sua crítica bem reforça o slogan da Alpharrabio: “livro novo é aquele que você não leu”.

VISITA À PINACOTECA, EM À JANELA DOS DIAS: POESIA QUASE TODA, DE DALILA TELES VERAS
                                                             Márcia Plana




Pinacoteca é um museu que contém um acervo de pinturas, uma coleção de quadros, um guardado de cores e traços. Ler os poemas: À janela dos dias: poesia quase toda, de Dalila Teles Veras, é visitar uma pinacoteca, visto que seus textos são pinturas em imagens poéticas. Vale trazer, para este contexto, as palavras de Décio Pignatari: “Poesia está mais do lado da música e das artes plásticas do que da literatura”.

Assim, o livro é composto por oito obras, cada uma delas é aberta por uma parte da imagem da capa (1), como a janela de um mosaico. Uma a uma, a janela da poesia quase toda, nunca completa, sempre pronta a surgir, configurando-se em trabalho da palavra, um fazer-se poiesis tanto dos quadros que se apresentam à suavidade das coisas ou numa simples contação de história embebida de pincel e cores, num azul do cotidiano urbano.

À janela dos dias: poesia quase toda é uma pintura espelhada em dez figuras triangulares e uma dança de obras em oito passos, cada passo marca uma obra, inscrita por uma figura geométrica e uma epígrafe - Lições de tempo; Inventário Precoce; Elemento em fúria; Madeira: do vinho à saudade; Forasteiros registros e nordestinos; A palavraparte; Alguns poemas dispersos e Inéditos.
Neste contexto luz, cor e geometria, partem do inteiro para as partículas e avança o olhar no rosto da mulher no triângulo do aparente último quadro, possibilitando o encerramento do livro ou o retorno para a reiniciar. Desta forma, a janela está aberta e parece permanecer aberta, para a entrada de leitores. Há muito que se pintar, que se contar nos olhos que saltam para além da página, porque a poesia se encontra no ar, nos espaços inimagináveis de um livro, pula e salta para um corpo vivo em performance ou se instaura como matéria inventiva de quem tem nas mãos, segundo João Cabral de Melo Neto, a pedra indestrutível, imóvel, a mesma, palavra a ser trabalhada com rutiliza e sutileza no odor suadíssimo do poetar.
Tanto que inicia o conjunto da obra com a citação de Carlos Drummond de Andrade “O problema não é inventar./ É ser inventado hora após horas/ e nunca ficar pronta nossa edição convincente”. É agora função do leitor olhar com sensibilidade a coleção de pinturas, como em Lições de tempo, que pinta os tempos imateriais em mistura de tempos, até germinar o tempo que se cumpre. Seus poemas parecem captar o momento de um instante, como fotografar as coisas para lhe atribuir vida poética no espaço impresso da página. Toma-se como exemplo este Inocência.

INOCÊNCIA

Pés a sentir os trigais
pele a refletir dourados
olhos a traduzir luz

Corriam

Eram apenas corpos
perdidos em sua limitação
na relva a colher papoulas
: sangue salpicado no trigo ardente

Era preciso o saber?

Era preciso saber? É preciso saber... quanta pintura, quantas cores, designam a luminosidade de uma imagem com respingo fanopaico. É desta forma que Pound se faz presente nos poemas de Dalila. Sem falar da movimentação, que foge da imagem parada, marcada pelos pés, pele e olhos que corriam, eram corpos perdidos, a colher papoulas, sangue salpicado. As aliterações em “S” e “P” reforçam o som da imagem do trigo ardente, bem como as sinestesias nos pés dos trigais perpassam a pele como luz e tinta, processo do trabalho árduo de sua construção poética.

O ritmo caminha para o inventário de sua arte poética. São pinturas nas primeiras páginas, respingado por tinta/palavra/poesia e uma pincelada de elementos memorialísticos com índices frequentes como perfil, o legado, a descoberta, no 8 de março, no renascer na balada finalística a imagens dos caminhos, dos trilhos: a dança. Trabalho consciente de quem utiliza as palavras para produzir arte. Paul Valery evidencia ao notificar a dança como poesia. Esta aparece claramente no bloco de anotações - Madeira: do vinho à saudade, um retrato poético que pronuncia uma história que não quer ser contada, mas deseja ser apresentada com vigor de obra plástica e performática. Assim, pinta a Videira, caleidoscópio, um aparelho óptico “vítreo” que mostra a imagem dos “homens e suas pesadas botas e a embriaguez”, bem como Vindima e seus Coadjuvantes. São versos: “O dia chegou claro...”, “Era belo o meu avô”, “Venho sonhando contigo”, uma mistura de imagens, cenas do retrato do cotidiano: suores, pés lavados, lépidos  e leves dançam, ... só os pés guardam as tintas do final do vindimar, de seu trabalho com as palavras. A arte com a linguagem se configura em metalinguagem na obra. 

Seus poemas, não ficaram apenas na seleção de livros anteriores. Estes, reescritos, se revigoram, desejam ser rememorados sempre. Assim, detém a última parte aos inéditos com leitura dos improvisos e anotações de viagens e uma invasão de falsos haicais, que notifica a sutileza da concisão, para armazenar a poeticidade em mínima quantidade de palavras. Sem ser haicai busca a percepção de captar a imagem e o momento em movimento poético, o momento da lembrança requisitada no instante tingido por palavras. Atribui seus poemas inéditos como falsos haicais, porque.... Pinta sem lápis de cor a vida. Seu artifício é a palavra em pauta de quem experimenta os momentos vividos com paixão. Convida-nos a abrir a janela e ver a vida nascer de um ponto, um traço, um som... de tudo e nada em seus poemas.

Seus poemas não querem que se falem deles, mas que se possa sentir e reviver cada imagem como um quadro vivo de luz e traços: o oficio de criar é rito/ a trajetória de viver é risco/ a missão da arte é ofício. E este ofício deita-se tanto para Dalila Teles Veras quanto para seus leitores que tornam a leitura um processo interminável. 




(1) Capa de Isabela A. T. Veras

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Paixão movida por compromisso - SETENTA anos, poemas, leitores - comentário crítico por Rubens Shirassu Júnior

Reproduzo abaixo, uma leitura crítica da minha antologia SETENTA anos, poemas, leitores, por Rubens Shirassu Júnior, publicada em seu blog: http://rubensshirassujr.blogspot.com.br/

Paixão movida por compromisso
  
“Meus poemas têm fome de humanidade e, contrariando o poeta, podem dizer o que penso ainda que eu, através do artifício da linguagem, induza o leitor a pensar que é ele que assim pensa. A função do poema, originada nas fomes, é justamente provocar outras fomes. Meus poemas têm fome do mundo que me cerca e das coisas que, de alguma forma, me perturbam e desassossegam.”

( Da entrevista Sobre poesia, ainda: Dalila Teles Veras, do blog Contra tanto silêncio, de Tarso de Melo. )


Rubens Shirassu Júnior


            Para comemorar sua vida e obra, a poeta Dalila Teles Veras lançou Setenta - Anos, Poemas, Leitores (Alpharrabio Edições, 110 páginas, Santo André, São Paulo - 2016). Uma antologia de setenta poemas escolhidos dos quinze títulos publicados pela escritora ao longo de 34 anos de intensa vida artística e ativismo cultural. Os textos que ilustram as páginas foram carinhosamente escolhidos por 70 convidados (escritores e amigos da poeta) de diferentes idades (desde o neto de Dalila de oito anos a outros com mais de oitenta) e de formações e interesses diversos.
            O cabedal lírico da poeta foi reforçado pela leitura de muitos poetas portugueses e brasileiros. Trinta poemas do livro trazem uma epígrafe de referência, a exemplo de Vias Oblíquas e Abismos na pequena seleta abaixo. Princípios, temporais, horizontes, altitudes – assim Dalila equaciona sua viagem, numa só voz. As epígrafes são pequenas interferências, pausa para que os poemas respirem a diferença, que os conjuga, os irmana, tanto quanto alguns poemas aparentemente isolados, tornam-se paradigmáticos por excelência. Um estudo das epígrafes na poesia brasileira moderna teria muito a dizer dos caminhos e descaminhos de nossa lírica – mas isto é uma outra conversa, para outra hora, outro espaço.
            Dalila Teles Veras, gosta de exprimir, de modo conciso, o que vê e sente em poemas que oscilam entre a inquietação, o tédio, a angústia e uma grande lucidez e capacidade analítica, junto ao lirismo e à afetividade e, acima de tudo, à paixão movida pelo comprometimento.
            No entanto, Dalila é voz mais que solitária em sua geração; voz condenada, diga-se de passagem, a uma feliz solidão. A sua erudição e a sua, se assim posso chamar, desenvoltura rítmica a mantém isolada dos grupos mais recentes. Neles, a artificialidade, o excessivo das paráfrases e das colagens, que nos últimos anos têm tornado a poesia um exercício cansativo e repetitivo, sem força e sem rumo, fizeram de nossa paisagem poética um campo desolado. Foi exatamente a publicação de Setenta, que reverte esse quadro. Com esse livro recuperamos o ânimo de celebração, atualmente tão pouco presente em nossa poesia, e que só era mantido pelo vasto grupo que estreara nos anos 50 e 60, contrário a todos os ismos do período (sem contar com alguns remanescentes desse mesmo grupo, já nos anos 70 e 80, poetas ainda à espera de uma reavaliação à altura de sua importância), Dalila, talvez seja o nome que mais se destaque na geração que tem hoje de 60 a 70 anos de idade.
            Com ela, estamos de volta à terra magnética da poesia, da poesia genuína e eterna. Seu espírito, claro, é totalmente avesso ao neoparnasianismo disfarçado de neossimbolismo que é moeda vigente entre os novos, má prosa disposta em versos, ou das degenerescências pós-concretistas ou pós-cabralinas que assolam um vasto segmento da poesia contemporânea. Há exceções aí, mas são raríssimas.
            Para a poeta crivada de sons, rostos, imagens, aromas e paladares, a palavra é carnal, é volúpia do verbo, é encontro e pulsação. A palavra a serviço da poesia, uma poesia que raia o mediúnico, onde Dalila é a pastora da iluminação do verbo. A sua inteligência, a sua erudição e o seu fascínio pelo que há de humano na história do homem a aproximam da verdade das coisas mais simples. São atributos que em poeta de baixa voltagem fatalmente serviriam apenas de adorno. Sobretudo porque a simplicidade, em poesia e em tudo o mais, é trunfo só dos grandes.


III

Solitária garça
mergulha no rio
solitário homem
atira a tarrafa
fatalistas, bem sabem ambos
da incerteza do gesto

( Página 69 )

8 de março

Deram-lhe um dia
apenas um dia
(devem-lhe séculos)

 Na tentativa de remissão
as flores constrangidas
(homenagem tardia)

 ( Página 54 )

 Mater dolorosa
  
ventre crescido de miséria
murcho ventre – lembrança
sexo destituído de prazer
ventre inflado de ausências
ventre que não mais protege
ventre que não mais alimenta
sua própria matéria
  
( Página 67 )


As faxineiras do edifício

Surpreendentemente
(não obstante, os dez mil, quatrocentos e trinta e um degraus,
os oito mil, trezentos e vinte metros quadrados de piso, as
quatrocentas e quinze vidraças e as três toneladas de lixo à
espera de variação, transporte e limpeza)
cantam...

( Página 38)

 Elemento em fúria

 Ao pé das antigas tabuletas
grafitadas de sangue e esperma
foi desatrelada a canga
- campo de palha e fel

campesina
despiu as presunções
sobraçou as certezas
deter
minou
  
indignar-se
riscar o fósforo
centelha restauradora
- campo de figos e mel.

 ( Página 57 )

 Vias oblíquas

 “Porque parte tudo um dia
O que nos lábios ardia
até não sermos ninguém”

Paixões Diagonais, Miguel Ramos / João Monge


depois que a mulher voejou
levando consigo a
claridade dos cômodos e
décadas coabitadas, o
marido, no escuro
ensimesmado
deixou o cabelo crescer, o
mato tomar conta dos
canteiros o
pó cobrir móveis e assoalhos


sete luas após a mulher
levar consigo a sonoridade
da alcova, o marido
às claras e resoluto
reagiu
engaiolou dez pássaros e
registrou em cartório o
certificado de propriedade
dos novos moradores com
direito a concertos privados
  
( Página 37 )

Abismos

“Dizem as velhas da praia que não voltas
São loucas!
São loucas!”
      Barco Negro, David Mourão-Ferreira / Caco Velho / Piratini

diante de seus medos
um homem
com toda a fragilidade
de um homem
  
(na esquina do viver onde
a luz encontra as trevas e
prenuncia tormentas)

 um homem
que se recusa
assistir ao embarque
protagonizar a despedida

em desespero, agarrado
ao cordão, em vias de
um homem e seus abismos
incontornáveis

 ( Página 30 )
  
Bordadeira

É de risco esse teu ofício
urdindo pontos e riso
a conversa andando à roda
e os planos traçados no bastidor

Florista do tecido
enfias sonhos na agulha
traças linhas no destino
fatal e premeditado fiar
A vida! Será ela em ponto cheio?
ou pespontada de sombras e granitos?

 ( Página 60 )

SETENTA
anos, poemas, leitores
Dalila Teles Veras
Poesia Brasileira
Alpharrabio Edições
112 Páginas
Santo André – São Paulo

2016