sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Ponto Corrente – Mulheres, repressão e teatro nô

Era uma noite de um dia tenso, aquela do dia 31 de agosto. 

Uma noite que trazia como presságio a possibilidade daquele dia que morria, vir a durar 20 anos, assim como durou um dia semelhante, no já longínquo 1964.

Carregada de abatimento, fui. Não poderia faltar. Afinal, ali, no palco do Teatro Municipal de Santo André, estaria o Grupo Pontos de Fiandeiras, com o espetáculo Ponto Corrente. Artistas de fibra, gente que admiro e acompanho com interesse, desde o primeiro trabalho. 

Ali, pelas artes da arte, aspectos da História de um obscuro período brasileiro, a ditadura Civil Militar (1964-1984) passava pelas mentes e corações do público presente, diga-se, em número surpreendente para um dia como aquele.

A peça, com a dramaturgia sempre sensível e elaborada de Adélia Nicolete, é o resultado de exaustiva pesquisa do grupo Pontos de Fiandeiras, sobre mulheres ativistas no ABC nos anos 60 a 80. Mulheres que não esmoreceram, ainda que o silêncio imposto pelas circunstâncias e cultura machista tentasse, sem êxito, o apagamento de seu papel.

Maria da Graça, Maria da Fé, Maria das Dores, Maria Auxiliadora, mulheres que sustentaram, nos bastidores, mas sempre de forma decisiva, a manutenção das grandes greves de 1979 e 1980 na região. Marias que, na linha de frente, lutaram por creche, moradia, mobilidade e outras causas sociais. Mulheres, cujos corpos lembram a desmoralização, mas que hoje “determinam onde é o seu lugar”. Marias que entristeceram quando ouviram os Joões dizerem que “construíram tudo sozinhos”, mas seguiram à busca da própria identidade. Marias que amaram até o limite do amor, na clandestinidade. Mulheres que já sabiam que “quem não conclama convoca os ditadores.  Mulheres que o grupo agora revela, através de sua pesquisa de campo, retirando-lhes os véus de suas respectivas histórias.

Mas é teatro... Diz o bordão da peça, que se vale de elementos do Teatro Nô e, como na vida real, de alegorias para camuflar verdades.

A metáfora do navio conecta os fatos de então (viagem, retorno ao recordar) aos dias de hoje. O elenco, composto pelas jovens e talentosas atrizes Camila Shunyata, Roberta Marcolin Garcia, Fernanda Henrique e Vivian Darini “materializa” de forma muito digna e verdadeira essas personagens saídas da vida real direto para o teatro.

Sim, é teatro, mas é tudo verdade e vale, para além do deleite da arte, também para reflexão sobre os dias que passam. 

Ao final da apresentação, a grata surpresa: chamaram a atriz Sonia Guedes, decana do nosso teatro andreense, presente na plateia, a quem homenageiam com uma fala no final da peça. Tudo muito singelo, tudo muito bonito.


Tudo aquilo, confesso, acabou me deixando, como diria o Poeta maior, “comovida como o diabo”.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Poesia Sem Quartel - Casa das Rosas 13.08.2016

No último sábado, 13.08.16, na Casa das Rosas, em São Paulo, participei do recital “Poesia sem Quartel”, sob a curadoria de Hamilton Faria e Luiz Roberto Guedes. Uma noite muito significativa. Casa cheia de gente interessada. Verdadeiro momento de rebeldia poética. O passado tristemente lembrado, contra um presente incerto.



Havia preparado um texto para ler na ocasião, mas percebi que seria impossível dize-lo nos 10 minutos que haviam reservado à minha participação. Assim, li uma versão mais condensada, apenas com o poema de Lea Aparecida de Oliveira.

Deixo aqui a íntegra da primeira versão que vai além e lembra e homenageia outras pessoas:  

De acordo com a crendice popular, este é o mês de cachorro louco e este dia é do azar. A poesia está aqui, como sempre, para desconstruir e reafirmar outras verdades fora das paredes estabelecidas.
No dia 1º de abril de 1964, uma quarta-feira cinzenta, 18 anos incompletos, estagiária na FIESP (quem diria!), fui dispensada do trabalho junto aos demais funcionários. “Fiquem tranquilos, o país passa por uma revolução democrática”, disseram-nos, e eu, analfabeta política, acreditei. Era, sublinhe-se, literalmente, um Primeiro de Abril.
As Manchetes dos principais jornais dos dias seguintes, reforçavam a orientação dos meus patrões: “Vitorioso o movimento democrático”, O Estado de São Paulo. Ressurge a Democracia. Vive a Nação dias democráticos”, O Globo. “Lacerda anuncia volta do país à democracia” Correio da Manhã, entre outros.
O setor em que eu trabalhava era o das comunicações, ao qual estava ligada a sessão da imprensa, onde trabalhavam, dentre outros, o jornalista e já então poeta de 2 livros publicados, Álvaro Alves de Faria de quem me tornei admiradora e amiga desde então, e que iniciaria no ano seguinte um movimento, dentre os muitos outros à época, de recitais públicos na ruas e praças de São Paulo que resultaria, nesse mesmo ano no livro O Sermão do Viaduto. Era já, a poesia sem quartel, mas que mandava os poetas para os porões fétidos de um quartel, o DOPS.
E de sermão em sermão, de notícias e não notícias, fui me alfabetizando politicamente.
Em 1967 vou trabalhar, no cargo de secretária administrativa, numa indústria multinacional de autopeças em São Bernardo do Campo, no chamado Grande ABC, região metropolitana de São Paulo composta por sete municípios (S.A., SBC, SCS, Diadema, Mauá, R.Pires e R.G.S). O contato com outra realidade, ou seja, a possibilidade de ouvir simultaneamente e comparar os discursos dos capitães de indústria, meus patrões, bem como, gradualmente, também o dos peões, novos personagens que no final dessa década, início da seguinte, entrariam de forma surpreendente na cena nacional brasileira, através das lutas operárias travadas e inegáveis conquistas sociais.   
1968, atenta ao mundo, a revolução comportamental deflagrada em Paris desperta de vez a consciência e me faz olhar mais agudamente para o Brasil e o meu entorno. Em minha mesa de trabalho, uma reprodução de um grafite nos muros da Sorbonne que acabou virando slogan de toda uma juventude planetária da época: Seja realista exija o impossível. Era a minha ainda ingênua forma de ser “revolucionária” e a partir daí, foi na palavra e, posteriormente, na ação cultural que a minha “revolução” se deu. No final desse mesmo ano, com o AI-5, não havia mais como ignorar o que se passava no país.
Em 1972 caso-me com o advogado Valdecirio Teles Veras e fixo residência em Santo André. Valdecirio era assessor jurídico do Sindicato dos Metalúrgicos e foi meu professor de política, atualizando-me com as notícias que os jornais não davam. Devo a minha politização a ele e ao seu colega de lides advocatícias e literárias, o já muito saudoso Antonio Possidonio Sampaio, amigo-irmão a quem presto aqui uma homenagem. Por 44 anos, formávamos um trio inseparável. Devo a ambos também o meu interesse pela política no seu sentido mais amplo, o da participação cidadã, o interesse pelas políticas públicas que visassem o bem comum através da inclusão social.
Na virada dos anos 70 para os 80, O ABC demonstra uma grande capacidade de mobilização popular. A luta nas ruas estende-se também para os movimentos grevistas, emergência do chamado novo sindicalismo, exemplo para uma tomada de consciência política nacional. Os olhos voltados para a região do Grande ABC que se insere na moderna história do país, artistas brasileira capturam esse clima através de sua arte. Dentre muitos, lembro aqui  Leon Hirzman que leva para o cinema a peça Eles não usam black tie, de Gianfrancesco Guarnieri, que também assina o roteiro do filme, transpondo-o para o ABC. Antonio Possidonio Sampaio. São de sua autoria, romances imprescindíveis para compreender esse período obscuro e violento da vida brasileira, “Sim Sinhor, Inhor Sim, Pois Não” (contemplado com o 1º lugar no I Concurso Escrita de Literatura e publicado como encarte no número 17 da revista Escrita em 1971), “A Capital do Automóvel (na voz dos operários)”, 1979 e Lula e a Greve dos Peões, 1982, livros que traduzem esse cenário de inquietações.
A sociedade dá mostras e vontade de reorganizar-se e nascem novas perspectivas culturais. A par das reivindicações por melhorias sociais, o Sindicato dos Metalúrgicos, através do seu Departamento Cultural, também assumia um compromisso com a cultura e a arte, não só como meios de lazer dos operários, mas também como instrumento de conscientização política, através de ofertas artísticas de qualidade. O Grupo Forja, criado em 1979 e dirigido por Tin Urbinatti, encena textos sobre o universo operário, através de criações coletivas dos próprios operários. São promovidos festivais de música e ciclos de cinema. A política e a cultura se entrecruzam e operam mudanças profundas na sociedade. Sem amparo institucional, artistas criam um clima de verdadeira efervescência, formam-se coletivos de debates, levantam-se contra a censura em concursos literários, abrindo um processo de discussões que não teria volta até o completo restabelecimento da democracia no país.
Foi pela mobilização popular e pela cultura que o Brasil deu a resposta. Na região paulista do ABC não foi diferente, ou melhor, foi muito mais.
É preciso sublinhar o importante papel das mulheres em todo esse período. Mulheres que pegaram em armas, que foram à luta em pé de igualdade com os homens, mulheres que lutaram por creches e outros direitos, mulheres que, juntas, e em seus múltiplos e estratégicos papéis, sustentaram de forma decisiva a manutenção das greves, tanto na resistência quanto na retaguarda das lutas.  Mulheres que a história tentou silenciar, mas não conseguiu e que estão recontando sua história nos últimos anos, através de pesquisas, depoimentos, livros, Congressos, Encontros e Seminários, como o que ocorreu recentemente no ABC sob o tema “A justa rebeldia das mulheres na América Latina e Caribe”, reunindo mulheres que participaram de guerrilhas, não calaram e vieram contar a sua própria história.  Dentre outras muitas iniciativas de resgaste da história das mulheres, também o grupo de teatro Ponto de Fiandeiras, vem pesquisando e encenando como resultado de suas pesquisas, a história da mulher operária e da mulher que resistiu aos anos de repressão política. Seu mais recente trabalho é a peça "Ponto Corrente" que retrata o papel e a militância feminina contra a ditadura.
Diante das odiosas e inaceitáveis manifestações machistas e misóginas destes tempos, novamente tristes e sombrios, escolhi alguns poemas de mulheres para esta ocasião e começo com Léa Aparecida de Oliveira. Trata-se de um nome desconhecido nos meios literários, mas que muito significa neste contexto que acabo de narrar. Léa, operária de chão de fábrica, militante sindical e política, eleita, vereadora na cidade de Mauá, lá no meu subúrbio do ABC. Morreu precocemente num acidente automobilístico e publicou 3 livros de poemas. O longo poema OS MISERÁVEIS é de seu livro O Sol & Eles, Massao Ohno, 1981, livro que é dedicado “À memória dos milhares de companheiros que perderam suas vidas na anonimacidade entre o barulho estridente das máquinas e o ferro em brasa...”. Alguns excertos: 

OS MISERÁVEIS
(...)
No ABC eu caminhava aprendendo
o A do Bê e o Bêabá, o que será, o que será?
- Tic-tac-tic-tac-tic-tac...
(...)
Logo viria a queda do Skylab, poderia
ser o fim, ninguém sabia onde ele ia cair.
Torcia para que caísse lá em Brasília na
cabeça do Figueiredo. Já os companheiros da
fábrica pediam que caísse na cabeça dos chefetes,
réplicas menores da repressão
- Tic-tac-tic-tac-tic-tac...
A polícia toda estava alerta para qualquer
movimentação, um passo nosso, nós da ralé,
evaporaríamos, sumiríamos
Já teria dito Essenine poeta da época de Maiakóvsky:
“Nesta vida morrer não é nada de novo,
mas viver também não é muito mais novo”.
- Tic-ta-tic-tac-tica-tac-tic-tac...
(...)
As greves tinham passado em abril de setenta e
nove e ninguém tinha como eu a maior certeza que
poderíamos virar a mesa. Era questão
de sobrevivência.
Conquistaríamos a vida ou morreríamos de vez.
Mas tantos optaram pela morte lenta e gradual
do dia a dia, o baixo salário, a instabilidade,
as horas extras, a produção de milhares,
milhões, bilhões, trilhões de peças, máquinas
carros, com o lema Maior quantidade menor
qualidade, as péssimas condições de trabalho
e ainda achando que ver os “gigantes” da Globo é
lazer.
- Tic-ta-tica-tac-tic-tac...
Foi quando o meu eterno amor sumiu do mapa,
assim como um clic, e... pronto! Sobreviveria
mais por preservação do que vontade de viver.
Depois tinha meu amor pela classe, muito mais
forte, e era estranho amar assim quando a
indiferença nos apunhala pelas costas. À merda
tudo e todos!
- Tic-tac-tic-tac...
 (...) não sou dessas mulheres que
só dizem sim. Só digo não!
(...) e todas as vezes
que passei correndo na frente do trem e sentia meus
pés pesados fincados no chão era por instinto
que corria. Mas e os amigos? Uns lá, outros
cá. Uns mais prá lá do que pra cá?
- Tic-tac-tic-tac...
(...)
O momento ia chegando. Tudo estava tenso
Por mais que me apressasse e corresse. Por
mais que tentasse quebrar as minhas correntes
e as dos outros, chegava o momento assim
como um torturador profissional que manja da
arte do pavor, do medo, chegava.
-  Não, não, não me entregaria assim de mão
beijada. Nada disso. Iria resistir até o fim.
(...)
Naquele dia assassinaram em São Paulo o Santo.
Deram-lhe um balaço que me estonteou e o levou
à morte. Eu queria berrar a minha dor, meu peito
dilacerado com os companheiros também mortos
em Minas, era muito, não poderia aguentar tanto
e o momento aproximando-se...
Quem sabe se botasse fogo na fábrica, ou desse
uns bofetes na cara daqueles puxa-sacos de merda.
Era isso! E ia gritar, berrar, sapatear, sei lá...
Fiz um longo poema e o declamei no meio da seção
subvertendo aquele silêncio fúnebre e mal tinha
acabado de dizê-lo já me haviam dedado.
(...)Não me entregaria. Não iria pedir água. Não e não! Jamais
iria me aliar aos miseráveis. (...)
- Tic-ta-tic-tac-tic-tac...
Corri desesperadamente quando a política tomava
toda a cidade, as ruas, à paisana, a cavalo,
em motos, viaturas, camburões. Eu não me
entregaria. Assim não! Corria e lembrava do Santo;
o Metalúrgico.  (...)
Corri e o tic-tac-tic-tac... agora mais
forte. Maldito relógio me denunciando com suas
pancadas incontidas e os prédios me sufocando.
(...) Tenho que resistir até o fim.
(...) Há repressão! Os policiais. Há censura!
Há auto-censura! Eu não era mais eu. (...)
A dor, há dor, ... (...)
Impossível deixar de chorar. (... )
Era necessário que resistisse.
Podia dar um tiro na cabeça e estourar os miolos.
Mas ninguém me compreenderia. Era tarde demais.
(...) Mas não havia mais tempo pra lamentos
nem porquês. Chegou a hora. (não teria misericórdia.
Consumado o fato. As ruas tomadas de
policiais. Meia-noite. Zero-hora.
Do relógio da igreja matriz um bléim
encheu o mundo.
QUATORZE DE NOVEMBRO DE MIL
NOVECENTOS E SETENTA E NOVE. Amanheceu!
Além me disse:
- FELIZ ANIVERSÁRIO!

Mauá 14.11.79

Poesia sem Quartel - Casa das Rosas - (continuação)

Poesia sem Quartel – Sarau Casa das Rosas 13.8.2016 - 2 (continuação)





ESPERA 
     Aos Metalúrgicos do ABC – 1980

O ódio
     é tamanha a repressão!
O nojo
     são tantas as armas!
A raiva
     diante da impotência!
O grito
     estrangulado nas
     gargantas secas e caladas
     nos músculos tensos
     nos punhos cerrados
     nos corpos sofridos
O cansaço (o medo)
      A vertigem!
Mas uma força, uma grande força
Sustenta estes corpos, fortifica-os:
As máquinas estão lá, paradas,
Dependendo desses braços

Os homens, não mais máquinas
Esperam
Quase trapos, mas homens!
Esperam
Dalila Teles Veras in Lições de Tempo, 1982 (poeminha um tanto quanto panfletário, rejeitado pela autora, mas que na ausência de algo melhor para este dia, serve como memória de nossa história recente)

CAÇADA
            
O dia e sua cilada
surgiram de surpresa.

No instante iníquo
não consegui rastear
a fuga. Sabia-te indefeso
à mira, ao tiro
Despedaçara-te.
Em cega fúria de fera
empunho meu escudo
de veneno e ódios.
Antecipo-me

Retomo-te em meus dentes
e prossigo.

TEMPO DE DESERTO

Quem resiste a esse
tempo de deserto?

Que olhos vêem esse
horizonte cinza?

Quem nos abisma
nessa travessia?

Quem nos legou
escombros e salinas?

Quem permanece vivo
entre esses mortos?


Lara de Lemos (Porto Alegre, 1923, Rio de Janeiro 2010), in  Adaga Lavrada, Civilização Brasileira/Massao Ohno, 1981

BURITI CRISTALINO

             para Lamarca e outros

Ele andou por três dias
na caatinga.
No quarto dia ajoelhou
de fome.
No quinto adormeceu ao pé da baraúna.
No sexto foi encontrado e metrado pelos guardas.

E no sétimo
descansou.

Renata Pallottini  – Cantar meu Povo, Massao Ohno, 1980

D. QUIXOTE EXPLODE
             para Alfredo, meu pai

Todas as noites
minha rua explode
como Hiroshima
e Nagasaki
como a adolescente
que explodiu
o mundo no banheiro.

Como a Lagoa Rodrigo de Freitas,
num cogumelo
de peixes apodrecidos
que sobe ao topo
dos sergios dourados.

Cada estrela
estoura
e some
atrás da fumaça.
A Lua
não tem mais graça
é um astro rouco
e sem parceiro de espaço.

Explode o aço jovem
dos tempos de guerrilha
e a ilha
e a trilha
do mundo
explode minha família
a igreja, as mães e os filhos;
Deus se perde...

Explode meu pai
pelos ares
o último D. Quixote
do século
como um vento magro,
vai vendo
suas histórias
            acontecerem


 Denise Emmer (RJ 1958), in Flor do Milênio, Civilização Brasileira, 1981
(*) Alfredo Dias Gomes, dramaturgo


Um estado muito interessante

Conheço o meu país
no escuro – pelo tato.
E se me amarram as mãos nas costas
conheço pelo cheiro.
E se me tapam o nariz
ainda assim conheço o meu país
pelo que dele sobra
às minha volta.

Não conheço o meu país pela boca.
Não conheço o meu país pelos ouvidos.
Não conheço o meu país pelos olhos.

O que a boca solta o ouvido não encontra,
o papel não grava, o olho não recorta.

Conheço o meu país
mas não o conheço de dentro
Também não o conheço de fora.
Conheço-o de lado
Quer dizer que o conheço
sem relevo

Muito curioso esse país rasante
como um vôo rasteiro.

Meu país bicho-de-concha
para dentro de sua casca
sem contorno.

Mito curioso esse país no escuro
sem local exato de pouco para os dedos.

Muito curioso esse país de cheiros
sem apoio.

Muito curioso
e muito interessante.

O termo é este.

Um país interessante
é como uma mulher em estado interessante?

Uma mulher em estado interessante
sempre acaba
                       em trabalho de parto?

invevitavelmente? não há outra saída
além daquela prevista na barriga?

Um país muito barrigudo
é uma mulher inchada –
de basófia ou filhos?

A comparação nã ocabe, entre pessoas
estados, de corpo, alma e federativos?

Ou cabe até demais?

É isto mesmo.
Tudo cabe em um país.

Ou não?

Como tirar a dúvida? Por exclusão
do que primeiro?

estados? almas? pessoas?
o que ficar? sobra? federação? filhos?

o que faço
se não controlo as respostas
pela boca; assobio? (....)

No escuro meu país é simples.
Dois sentidos bastam.
                                 E sobram.

Se nenhum sentido
meu país teria
                       a mais perfeita ordem.

Zulmira Ribeiro Tavares, in 26 poetas Hoje, org. Heloisa Buarque de Hollanda, 1976, paulista, 1930


segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Poesia feita por Mulheres

Atendendo ao convite do Coletivo Tantas Letras, por intermediação da poeta Conceição Bastos, elaborei uma fala sobre Poesia feita por mulheres que encerrou uma série de encontros promovidos por aquele coletivo de São Bernardo do Campo, que teve por tema central Mulheres na Literatura: leituras e legados”. O bate-papo ocorreu no encontro de junho deste ano, o XVI, do Sábados PerVersos, na livraria Alpharrabio, em Santo André.


Dessa minha pesquisa, resultou este texto:

Poesia Feita por Mulheres

Durante séculos apartada do direito do acesso à educação formal, a mulher, até há muito pouco tempo, era educada apenas para as prendas domésticas. Quando iniciada nas letras era apenas para ler o que os homens escreviam sobre ela ou recitar os poemas (dos homens) após o jantar, nos saraus domésticos.
No Brasil, as mulheres conquistaram, por decreto, o direito de votar apenas em 1932, no Governo Getúlio Vargas e essa conquista foi graças a uma luta de anos. Mesmo assim, esse decreto foi aprovado parcialmente, permitindo que apenas mulheres casadas, com autorização dos maridos, e  viúvas e solteiras que tivessem renda própria o acesso ao voto. Em 1934 essas restrições foram eliminadas do Código Eleitoral, ainda que a obrigatoriedade do voto fosse apenas um dever masculino. Só em 1946 é que a obrigatoriedade do voto foi estendido às mulheres.
Ou seja, o direito feminino à cidadania plena no Brasil tem a minha idade, 70 anos. 70 anos na história representa quase nada.
Seria interessante lembrar que somente depois da II Guerra Mundial, em 45, é que a mulher, com a necessidade de trabalhar fora do lar, tornou-se mais independente, mas ainda assim, sem atingir em pleno século XXI as conquistas mínimas de caráter social e trabalhista, como salário igual para cargos iguais e tantas outras que mexem com a estrutura familiar, como a divisão de trabalhos domésticos.
Com o avanço da ansiada liberdade feminina, a mulher adquiriu tantas ou mais atribuições do que antes e paga caro o preço de sua suposta independência.
Essa independência resume-se, afinal, à condição da dependência de outra mulher que é contratada para realizar os trabalhos domésticos, uma vez que, em pleno Século XXI,  o homem ainda não aceita essa vil tarefa, que a sociedade convencionou chamar de feminina. Portanto, alguém sobrou nessa estória toda. Essa mulher que é contratada para fazer os serviços daquela que deles se livrou, geralmente oriunda de uma classe social menos favorecida, é quem arca, afinal, com o ônus, obrigando-se à dupla e tripla jornada de trabalho, arcando com a tarefa do lar onde trabalha e a do próprio. Sobrou também para aquelas, que mesmo necessitando trabalhar fora de casa, não ganham o suficiente para pagar uma empregada e também arcam com a dupla jornada de trabalho.
De qualquer maneira, o acesso da mulher à educação, deu no que deu. Ela está aí, ocupando cargos como a magistratura e os altos postos na Justiça Federal, na política, chegou ao Senado, aos Ministérios e, ainda que a misoginia ainda impere, à Presidência da República. Nas empresas, alcança, cada vez com mais frequência, os mais altos cargos, e, na literatura, é visível um grande aumento do número de mulheres escritoras que recebem, a despeito dos ainda fechados clubes do bolinha, reconhecimento através de prêmios e de sucesso de público. Mas ainda é pouco, muito pouco.
Neste caso, a pergunta, sempre polêmica, que se faz costumeiramente é se existe de fato uma literatura que possa ser considerada feminina ou de estética feminina? A minha resposta inicial seria: tem sexo a escrita? Tem sexo a poesia? É claro que o discurso jamais é neutro e a história da literatura nos mostra o quanto a escrita feminina foi olhada com desdém ao longo do tempo. Examinemos aspectos de algumas antologias que são bastante reveladores:

-Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Romântica, Manuel Bandeira, 1ª. edição, 1937, Imprensa Nacional, 3ª, Imprensa Nacional, 1949 -  25 poetas antologiados, nenhuma Mulher, nem sequer nas notas.

Antologia dos poetas brasileiros da fase parnasiana, Manuel Bandeira, 1938, Ministério da Educação (Gustavo Capanema)
- Num total 24 poetas, apenas Uma mulher – Francisca Júlia (7 poemas e uma nota ao final do livro)

-Antologia de Poetas Bissextos Contemporâneos, Manuel Bandeira, Zelio Valverde, 1946 - 35 poetas, 4 mulheres
- Joanita Blank (o próprio Manuel Bandeira publicou uma plaquete com 10 poemas dela de 30 exemplares)
-  Lucila Godoi (nome verdadeiro de Gabriela Mistral ?)
-  Maria Clara Machado; 3 de abril de 1921, BH, MG /  2001, RJ (filha do escritor Aníbal Machado)
-  Maria Helena (filha de Alceu Amoroso Lima)

- Obras-Primas da Lírica Brasileira, Manuel Bandeira, Livraria Martins, 1957
131 poetas e apenas 11 mulheres
-Ana Amália de Queiroz Carneiro de Mendonça ( 1896, -1971, RJ Militante pela defesa das causas da mulher; Fundadora da Casa do Estudante do Brasil, RJ) Mãe da crítica Bárbara Heliodora;
-Auta de Souza (1876-1900, Natal, RN) Publicou apenas um livro, Horto, viveu 24 anos);
- Cecília Meireles;(1901-1964)
- Francisca Júlia; (1971-1920)
- Gilka Machado; (1893-1980)
- Henriqueta Lisboa; (1901-1985)
- Lila Ripol; 1905, RS,  1967, RS, poeta, pianista e militante comunista.
- Maria Eugênia Celso; 1886-1963 (aristocrata, filha do Conde de Afonso Celso e neta do Visconde de Ouro Preto) gozou se prestígio literário à sua época
-  Maria Isabel (Ferreira) Nascida no RJ, publicou pequena coleção de poemetos em 1942 (informações de Vinicius de Moraes que a conheceu e a enviou para MB)
-  Oneyda Alvarenga; de nome completo Oneyda Paoliello de Alvarenga, (1911, MG, 1984, SP)  além de poeta, com apenas um livro publicado, foi  jornalista, ensaísta e folclorista. Aluna, colaboradora e grande amiga de Mário de Andrade. Foi a organizadora de seus livros após sua morte.
- Yone Stamato- (1915, SP ?) é de 1942 seu último livro, A imagem Afogada.

- Apresentação da Poesia Brasileira, Manuel Bandeira, Livraria Editora da Casa do Estudante, RJ, 3ª. ed.1957 - 52 poetas antologiados (De Gregório de Matos a Augusto de Campos) e apenas uma mulher (Cecília Meireles)
 São mencionadas em notas Francisca Júlia (“Parnasiana, a mais autêntica expressão da objetividade da escola”, Oneyda Alvarenga (promissora, mas que não foi adiante), Gilka Machado (neo-parnasiana, forte temperamento afirmado numa série de livros – Cristais Partidos, Estados de Alma, Mulher Nua, Meu Glorioso Pecado, Carne e Alma, Sublimação), Adalgisa Nery (Poetas pós-II Guerra, “não parecem ter sentido desejos de inovação); Lucy Teixeira (Geração 45)

Presença da Literatura Brasileira, Antonio Candido e José A. Castelo, Difusão Europeia do Livro, 1964 (autores significativos – “seleção drástica” a fim de uma mostra mais ampla de cada autor)
- Barroco, Arcadismo e Romantismo : nenhuma mulher
- Romantismo, Realismo, Parnasianismo e Simbolismo : nenhuma mulher
- Modernismo: Cecília Meireles (“se apresenta como um todo uniforme e linear, presidido por três constantes fundamentais: o oceano, o espaço e a solidão. (...) Não se descobre nela qualquer impulso de investigação temática (...) a sua linguagem é, contudo, demasiada clara, conduzindo-nos a uma visualização rápida e fácil (...) Poderá ser considerada herdeira do simbolismo  na poesia modernista brasileira. Cita Também Rachel de Queiroz.

Antologia Geração 45 (por Milton de Godoy Campos, Clube de Poesia, 1966]
Total: 64 autores, 9 mulheres (curiosamente os homens possuem data de nascimento, as mulheres não).
- Dulce Carneiro, 19?? poeta, dedicou-se à Alta costura e ao jornalismo de moda, (irmã do ficcionista André Carneiro)
- Hilda Hilst (1930/2004, SP)
- Idelma Ribeiro de Faria –  poeta e reconhecida tradutora (sua tradução de Emily Dickinson é tida como das melhores para a nossa língua)
- Ilka Brunilde Laurito – Professora do magistério secundário, cronista e organizadora de antologias. (1925-2012)
- Laís Correia de Araújo (,,??,,, ) MG foi casada com o poeta Afonso Ávila
- Maria Isabel – RJ ? (com visível influênica de Cecília Meireles (...) é poetisa e jamais chamaremos poeta a uma poetisa tão feminina”)
- Renata Palottini – 1931, SP
- Zila Mamede - 1928-1985, Paraíba

- Note-se que o Concretismo (inicial - 1945) não registra nenhuma presença feminina
-Antologia poética da Geração 60, Álvaro Alves de Faria e Carlos Felipe Moisés, organizadores, Nankin Editora, SP, 2000. 30 autores – 4 mulheres (Eunice Arruda, 1939; Lúcia Ribeiro da Silva, 1940, Neide Archanjo, 1940; Orides Fontela, 1940/1998).
- 26 Poetas Hoje, de Heloisa Buarque de Hollanda (Editorial Labor) uma antologia que mapeia a chamada poesia marginal, (movimento? moda? circunstância – a ditadura militar?) marcado pela “desierarquização do espaço nobre da poesia - tanto nos seus aspectos materiais gráficos quanto no plano do discurso”, no dizer da própria Heloisa. Como aponta o título, são reunidos 26 poetas atuantes naquele momento. Desses, apenas 5 mulheres (Ana Cristina César, Isabel Câmara, Leila Miccolis, Vera Pedrosa e Zulmira Ribeiro Tavares). Entretanto, nessa ocasião, havia milhares de poetas, homens e mulheres, integrando esse incrível circuito via correio e recitais nos mais inusitados espaços, públicos ou não. Muita coisa foi escrita depois disso (Leila Miccolis, Do Poder ao Poder e outros títulos; Moacyr Félix, “41 Poetas do Rio”; Eucanaã Ferraz, Poesia Marginal Palavra e Livro; Carlos Alberto Messeder Pereira, Retrato de Época - Poesia marginal anos 70, dentre outros) e muita ainda por contar, principalmente fora do eixo Rio-São Paulo.
- Poesia.br, org. Sergio Cohn, Azougue Ed., 2012, uma caixa com 10 volumes, cada um deles abarcando uma década (de 1940/50, 1960, 1970, 1980, 1990, 2000, mais os volumes: cantos ameríndios, colonial, romantismo/pós-romantismo e modernismo, listando 16 poetas para cada década. Aqui, as mulheres comparecem (ou desaparecem, em alguns períodos) em número igualmente reduzido. Assinale-se que em 2000, dos 16 poetas, 4 deles são mulheres.

Pequena antologia de poemas feitos por mulheres

TERESA MARGARIDA DA SILVA E ORTA – Nascida na cidade de SP em 1711 (ou inicio de 1712ª, filha de uma paulista e de um português que fez imensa fortuna do Brasil. Ainda criança, vai com a família para Portugal, casa-se contra a vontade do pai que a deserda. Publica, em 1752, “Máximas de Virtude e Formosura” com o pseudônimo Dorotéia Engrácia Tavareda Dalmira, primeira obra de ficção em língua portuguesa a se opor ao absolutismo, a reivindicar os direitos da mulher, a defender a autonomia das terras dos “ex-bárbaros” (alusão à Colônia portuguesa na América). Trata-se também do mais antigo texto ficcional que se tem notícia, escrito por autor brasileiro. O mesmo Marquês de Pombal que apoiou quando da expulsão dos jesuítas no Brasil, a mandou prender, sob alegação de haver mentido ao rei D. José. Há três textos da prisão, uma novena e dois longos poemas. Só no século XX seu nome ressurge nas pesquisas literárias de Portugal e Brasil (curiosamente, não é citada por Manuel Bandeira, nas obras mencionadas, mas é estudada por Alfredo Bosi em História da Literatura Brasileira, 1985,  Afrânio Coutinho, A Literatura no Brasil,1968; Wilson Martins, História da Inteligência Brasileira, 1976, Massaud Moisés e José Paulo Paes, em Pequeno Dicionário de Literatura Brasileira, 1980 e outros).Em 1993, a Editora Graphia, RJ, publica sua Obra Completa.

POEMA ÉPICO-TRÁGICO (escrito no cárcere, de cunho testemunhal, dividido em cinco prantos, com o total 132 estrofes, em oitava-rima (à maneira de Camões nos Lusíadas), escrito no cárcere. 

2
Com rouca voz, e Lira dissonante
Meus males cantarei, que o injusto fado
Contra mim suscitou, com mão possante,
Empenho vil, rigor precipitado:
Da fortuna mortal e inconstante
Darei um exemplar nunca cantado;
Pois que de Casa, honra e Liberdade,
Me usurpou a maior fatalidade.

3
As máquinas direi da impostura,
Cavilações, enredos e furores;
Estragos se verão da desventura
Nos efeitos do ódio e dos rigores:
Pois me tem posto quase em sepultura
Desta prisão sofrendo mil rigores,
Onde, da imensa dor preocupada,
Morrendo sempre vivo consternada.

(*) MARIA FIRMINA DOS REIS (1825-1917) – Não é citada em nenhuma das antologias de literatura pesquisadas. Negra, nordestina (maranhense) Em 1859, publicou “Úrsula”, apontado como o primeiro romance abolicionista e feminista escrito no Brasil. Maria Firmina muito publicou na imprensa local de sua época. Contos, poemas, crônicas e artigos outros. Professora e feminista, fundou, em 1880, a primeira escola mista (meninas e meninos) do Maranhão. É de se imaginar o que isso representou em termos de incômodo no status quo daquele período.

“Eu não te ordeno, te peço,
Não é querer, é desejo;
São estes meus votos – sim.
Nem outra cousa eu almejo.
E que mais posso eu querer?
Ver-te Camões, Dante ou Milton,
Ver-te poeta – e morrer.

FRANCISCA JÚLIA – de nome completo Francisca Júlia César da Silva Münster Nasceu em Xiririca, hoje Eldorado Paulista, Vale do Ribeira, SP, em 1871 ou 1874, (Manuel Bandeira registra 1871) e faleceu em 1920. Ligada ao movimento Parnasiano. Obras: Mármores (1895), Livro da Infância (1899), Esfinges (1903), Alma Infantil (com Júlio César da Silva, 1912), Esfinges - 2º ed. (ampliada, 1921), Poesias (organizada por Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1962). Escultura de Brecheret (“Musa impassível, título de um de seus poemas), originalmente concebida para o túmulo de Francisca Júlia no Cemitério da Consolação, onde permaneceu por muitos anos e, devido ao seu estado de deterioração, foi restaurada e transferida para a Pinacoteca do Estado de SP, onde permanece. No cemitério ficou uma réplica.

MUSA IMPASSÍVEL II

Ó Musa, cujo olhar de pedra, que não chora,
Gela o sorriso ao lábio e as lágrimas estanca!
Dá-me que eu vá contigo, em liberdade franca,
Por esse grande espaço onde o Impassível mora.

Leva-me longe, ó Musa impassível e branca!
Longe, acima do mundo, imensidade em fora,
Onde, chamas lançando ao cortejo da aurora,
O áureo plaustro do sol nas nuvens solavanca.

Transporta-me, de vez, numa ascensão ardente,
À deliciosa paz dos Olímpicos-Lares,
Onde os deuses pagãos vivem eternamente,

E onde, num longo olhar, eu possa ver contigo,
Passarem, através das brumas seculares,
Os Poetas e os Heróis do grande mundo antigo.

Mármores (1895)

GILKA MACHADO (Rio de Janeiro, 1893 - Rio de Janeiro, 1980), Poeta simbolista publicou seu primeiro livro em 1915. Seus versos foram considerados escandalosos por serem marcadamente eróticos.

Lépida e Leve

(...)
Língua do meu Amor velosa e doce,
que me convences de que sou frase,
que me contornas, que me vestes quase,
como se o corpo meu de ti vindo me fosse.
Língua que me cativas, que me enleias
os surtos de ave estranha,
em linhas longas de invisíveis teias,
de que és, há tanto, habilidosa aranha...

Língua-lâmina, língua-labareda,
Língua-linfa, coleando, em deslizes de seda...
Força inferia e divina
faz com que o bem e o mal resumas,
língua-cáustica, língua-cocaína,
língua de mel, língua de plumas?...

Amo-te as sugestões gloriosas e funestas,
amo-te como todas as mulheres
te amam, ó língua-lama, ó língua-resplendor,
pela carne de som que à idéia emprestas
e pelas frases mudas que proferes
nos silêncios de Amor!...


CORA CORALINA (Goiás velho, 20 de agosto de 1889, 10 de abril de 1985, Goiânia, Goiás). Freqüentou a escola por apenas dois anos, mas adquiriu, pela leitura e estudo autodidata, uma admirável fluência verbal. Reconhecida quando já passava dos 70 anos, depois de uma elogiosa crônica a seu respeito,  publicada por Carlos Drummond de Andrade. Saboreou, ainda que tardiamente, o reconhecimento e a consagração popular, recebendo, entre outras honrarias, o título de doutora honoris causa pela Universidade Federal de Goiás. Viveu até os noventa e cinco anos.
Publicou os livros: Poemas dos Becos de Goiás e estórias mais (poesia), 1965, Meu Livro de Cordel, (poesia), 1976; Vintém de Cobre - Meias confissões de Aninha (poesia), 1983; Estórias da Casa Velha da Ponte (contos), 1985; Meninos Verdes (infantil), 1986 (póstumo); Tesouro da Casa Velha (poesia), 1996 (póstumo, seleção e prefácio de Dalila Teles Veras); A Moeda de Ouro que o Pato Engoliu (infantil), 1999 (póstumo); Vila Boa de Goias (poesia), 2001 (póstumo); O Prato Azul-Pombinho (infantil), 2002 (póstumo).
Do Livro Poemas dos Becos de Goiás e estórias mais:

TODAS AS VIDAS

Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando para o fogo.
Benze quebrando.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo...

Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d´água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.

Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.

Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.

Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária,
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim           
a mulher roceira.                           
- Enxerto da terra,
meio casmurra.                             
Trabalhadeira.                              
Madrugadeira.                             
Analfabeta.                                  
De pé no chão.
Bem parideira.                             
Bem criadeira.                             
Seus doze filhos,

Vive dentro de mim
A mulher da vida
Minha irmãzinha...
Tão desprezada,
Tão murmurada...
Fingindo alegre seu triste fado.

Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
A vida mera das obscuras.

CECÍLIA MEIRELES (7 de novembro de 1901, RJ,: 9 de novembro de 1964, RJ) que além de poeta foi tradutora, ficcionista, ensaísta, professora. Neste poema, anuncia a sua condição de poeta, simplesmente, nem homem, nem mulher, poeta, apenas:


MOTIVO (Do Livro VIAGEM)

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias
não sinto gozo nem tormento
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.


HENRIQUETA LISBOA, 1901, Lambari, Minas Gerais / 1985, Belo Horizonte, Minas Gerais. Professora de Literatura, ensaísta e tradutora.

UM POETA ESTEVE NA GUERRA

Um poeta esteve na guerra
dia-a-dia longos anos.
Participou do caos,
da astúcias, da fome.

Um poeta esteve na guerra
Por entre a neve e a metralha
conheceu mundos e homens.
Homens que matavam e homens
que somente morriam.

Um poeta esteve na guerra
como qualquer, matando.
Para falar da guerra
tem apenas o pranto.
(in Nova Lírica, Imprensa/Publicações, 1971


PAGU – Patrícia Rehder Galvão (1910, São João da Boa Vista, SP – 1962, Santos, SP. Poeta, ficcionista, diretora de teatro, tradutora, desenhista, jornalista, comunista, militante política. Casou com Oswald de Andrade, com quem teve um filho, Rudá de Andrade, escritor e cineasta. Primeira mulher presa no Brasil por motivações políticas.

O célebre poema Côco de Pagu, de Raul Bopp dedicado a Patrícia Galvão, acabou por emprestar-lhe o nome artístico.

Pagu tem os olhos moles
uns olhos de fazer doer.
Bate-côco quando passa.
Côco de Pagu

Coração pega a bater
Eh Pagu eh!

Dói porque é bom de fazer doer.
Passa e me puxa com os olhos
Provocantissimamente
pra mexer com toda a gente.

Eh Pagu eh!
Dói porque é bom de fazer doer.
Toda a gente fica olhando
o seu corpinho de vai-e-vem
umbilical e molengo
de não-sei-o-que-é-que-tem.

Eh Pagu eh!
Dói porque é bom de fazer doer.
Quero porque te quero
Nas formas do bem-querer

Querzinho de ficar junto
que é bom de fazer doer

Eh Pagu eh!

Dói porque é bom de fazer doer.

LARA DE LEMOS ( 22 de julho de 1923, Porto Alegre, RS/12 de outubro de 2010, RJ), de nome completo: Lara Fallabrino Sanz Chibelli de Lemos. Poeta, jornalista, educadora, advogada, tradutora. Publicou 10 livros de poemas e foi reconhecida por seus pares e pela crítica. O poema O POETA E A PALAVRA, é do livro Adaga Lavrada, Civilização Brasileira / Massao Ohno, Editores, 1981

O POETA E A PALAVRA

Afio devagar
dentes e unhas.
Persigo a presa.

Não cedo
um palmo de mim
nem de meu passo.

HILDA HILST (21 de abril de 1930, SP, 4 de fevereiro de 2004, SP)
Poeta, ficcionista, dramaturga, cronista. É, dentre todas as vozes femininas da literatura brasileira, a dona da linguagem de maior complexidade. Talvez por essa razão, queixou-se a vida inteira dos poucos leitores. A crítica e, hoje, o grande público, já a consagrou como uma das grandes poetas brasileiras.  O poema a seguir, sem título, é de seu livro CANTARES DO SEM NOME E DE PARTIDAS

Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.

Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.

Que este amor só me veja de partida.

RENATA PALLOTTINI, 1931, SP (Dramaturga (teatro e TV), ensaísta e tradutora), dona de uma obra bastante extensa, é ligada à chamada geração 45.  Do livro NOITE AFORA, este poema:

TELEPOEMA

Não dou ibope.
Canto, toco saxofone, viro cambota
mas não dou ibope;
talvez um stripitísi, quem sabe
vomitar diante das câmeras,
quem sabe distribuir beijinhos ao público?
Não tenho os cabelos ondulados,
não sou estrela de telenovela
nem sou metade do par mais popular.
Não dou ibope nem na minha rua,
nem na minha casa.
Olho-me no espelho e não me vejo:
estou ligada no outro canal.

OLGA SAVARY Nasceu em  21 de maio de 1933 em Belém, Pará. Reside há muitos anos no Rio de Janeiro. Contista, romancista, ensaísta e tradutora de reconhecidos méritos traduziu dezenas de autores hispânico-americanos, como Octavio Paz, Borges, Cortazar, Neruda, Lorca, Vargas Llosa, dentre outros. É talvez a mais desabusada das vozes femininas na poesia brasileira do século XX, tida como dona de uma poética erótica e do amor, pelo fato de ter sido a primeira mulher brasileira a lançar um livro composto inteiramente de poemas eróticos, Magma. É desse livro, O poema Guerra Santa

GUERRA SANTA

Tenho um medo da fera que me pelo,
ao vê-la quase perco a fala
(embora seja a fera o que mais quero)

mas reagindo digo-lhe palavras doces
e palavras ásperas, torno
igual minha voz à voz dos bichos
para seduzi-la ou para intimidá-la,
para que pontiaguda me tome das entranhas
depois de dilacerar com as garras meu vestido.

LUPE COTRIM GARAUDE - 16 de março de 1933 / 18 de fevereiro de 1970. De nome completo Maria José Cotrim Garaude Gianotti (este último nome adquirido pelo casamento com o filósofo e professor José Arthur Gianotti). Assinou suas obras, por vezes, apenas Lupe Cotrim),  foi tradutora, professora da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Morreu precocemente, aos 37 anos, com uma obra reconhecida à sua época. Poema do livro RAIZ COMUM

CANÇÃO

Os anos vão me pisando
com os seus dias mais duros
e nas datas vou ficando,
por calendários obscuros.

Em mim jamais se deteve
um só instante sequer
e o tempo é mais uma sede
de um tempo que eu não tiver.

O presente me amordaça
no ritmo que vai passando
e o futuro é uma couraça
que o passado vai deixando.

O amor já nada sei.
Nos outros tão repartida,
caminho que não terei
pelos contornos da vida.

ADÉLIA PRADO, de nome completo: Adélia Luzia Prado de Freitas, nasceu em Divinópolis, MG, em 13 de dezembro de 1935. - Voz particularíssima e uma de nossas mais populares poetas. Formada em filosofia, foi professora durante 24 anos, mãe de 5 filhos e jamais deixou sua cidadezinha natal. O cotidiano e a fé cristã são temas recorrentes em sua poesia. É também ficcionista com diversos livros nesse gênero. O poema Casamento é do seu livro TERRA DE SANTA CRUZ

CASAMENTO

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

ORIDES FONTELA (Orides de Lourdes Teixeira Fontela – S.João da Boa Vista, SP, 1940, Campos do Jordão, 1998). Formada em Filosofia, foi professora da USP.  Figura polêmica, com uma obra experimental que prima pela concisão e a reflexão filosófica, foi reconhecida pela crítica, mas muito pouco conhecida do grande público. Publicou apenas seis livros de poemas (Transposição (1969); Helianto (1973); Alba (1983); Rosácea (1986); Trevo (1969-1988) e Teia (1996). Em 2006 saiu pela Cosac & Naif Poesia Reunida. É de TEIA, seu último livro, com o qual  foi ganhadora do prêmio APCA de 1996, este poema:

EROS II

O amor não

O amor não
ouve

O amor não
age

O amor
não.

Alguma bibliografia (além da já citada no corpo do texto):

- Vozes Femininas da Poesia Brasileira, Domingos Carvalho da Silva, coleção Ensaio, Conselho Estadual de Cultura, SP, 1959

- A Mulher Escrita, Lúcia Castello Branco e Ruth Silviano Brandão, Casa Maria, Editorial, 1989

- Feminino Singular – A participação da mulher na literatura brasileira contemporânea (Nelly Novaes Coelho, Marisa Lajolo, Cremilda de Araújo Medina, Bella Josef, Ilka Brunhilde Laurito, Adélia Prado, Julieta de Godoy Ladeira, Renata Pallttini, Zulmira Ribeiro Tavars e Hilda Hilsta. Arquivo Municipal de Rio Claro, SP, 1989

- A Literatura Feminina no Brasil Contemporâneo, Nelly Novaes Coelho, Ed. Siciliano, 1993

- Vozes Femininas – gênero, mediações e práticas de escrita, Flora Sussekind, Tânia Dias e Carlos Azevedo, organização

- Pastores de Virgílio – a literatura na voz de seus poetas e escritores, Álvaro Alves de Faria, org., Escrituras Ed., SP, 2009


(*) Devo ao poeta Diogo Cardoso, participante do encontro, a dica sobre a poeta Firmina dos Reis, incluída aqui a posteriori.